segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Justa distância

André Hambourg - La Conversation (1929)

Há uma palavra grega, aidos (Αἰδώς), que se traduz, por norma, como vergonha, modéstia ou humildade. Em todas estas expressões encontramos uma certa ideia de distanciamento, de tal forma que costumo interpretar aidos (Αἰδώς) como a justa distância que deve separar os seres humanos, para que eles possam viver com um módico de dignidade. O meu problema, contudo, é que esta justa distância não é fixa. Tenho constatado que, com o passar dos anos, a distância justa é cada vez maior. Não é que os outros me incomodem. Não. Sou eu que sinto estar a mais. O que significa isto? Apenas que qualquer coisa que eu tenha a dizer - e eu tenho cada vez menos coisas a dizer - não os interessa rigorosamente nada. E tudo aquilo que os poderá interessar, devido à minha ignorância, é-me desconhecido. Este legítimo desinteresse dos outros por aquilo que eu possa dizer e esta impotência minha em saber o que interessa aos outros são os motores que fazem crescer a distância. A justa distância protectora dos outros relativamente à minha presença é assim cada vez maior. Penso, por vezes e não erroneamente, que este afastamento, imposto pela justa distância, é um caminhar em direcção à morte. Também em relação a ela há uma justa distância, mas, ao contrário da outra, esta vai diminuindo. Esta diminuição não se deve apenas ao envelhecimento, mas ao facto de entre mim e ela haver cada vez mais assuntos em comum. Chegará a hora em que ela será a única que não se incomodará com aquilo que eu tenha a dizer.