domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Carnaval e a razão galhofeira

Francisco Suñer - Carnaval (1982)

Partilho com muitas outras pessoas um sentimento depressivo sempre que se chega ao Carnaval. Tentei várias vezes fazer uma arqueologia pessoal deste sentimento. Sempre me pareceram, essas tentativas, inúteis, pois as respostas obtidas estavam longe de me contentar. A tristeza que me invade - e que parece invadir muitos outros - não tem a ver com experiências singulares. Ela vem de outro lado. Vem daquilo em que se transformou o Carnaval. O Carnaval, originariamente, seria uma festa dionisíaco marcada pelo excesso, pelo desregramento, pela ultrapassagem dos limites que a razão apolínea impõe durante o ano. O Carnaval seria, desse modo, um momento do culto - de um culto místico, diria - de Diónisos. O que acontece, porém, é que o Carnaval foi domesticado e Apolo impôs a sua dura regra. O resultado são os tristes carnavais que vemos por aí, onde, em vez da superação dos limites da razão, se assiste à exibição de uma razão galhofeira e patética, que se manifesta nos desfiles das escolas e nos corsos para turista, e que tem a função de vigiar as populações para que evitem o desmando dionisíaco. O resultado é uma sensação de tristeza sem fim.