domingo, 21 de fevereiro de 2016

O Silêncio da Terra Sombria - 9. Memória

Amadeo de Souza-Cardoso - A casita clara – paysagem (1915)

9. Memória

Mundo sem sombra nem sol,
dedilhado sobre a noite,
imperfeito como um pretérito,
o passado aceso ao meio-dia.

Abrem-se ali rugas no calcário
e escaras no portão descaído,
uma rosa no vestido rasgado,
e fresco, o hálito da invernia.

Vou por uma rua esburacada,
iluminada de malmequeres,
seixos, a caliça nas paredes.

Lugar sem frutos, a poalha
entre campos, as mãos caídas,
caídas ao zunir da varejeira.

[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]