sexta-feira, 18 de março de 2016

A doença das democracias

Giorgio de Chirico - O Grande Jogo (1971)

Segundo The Guardian, a imprensa afecta ao regime chinês, embalada pela caminhada triunfante de Donald Trump para a nomeação, pelos republicanos, como candidato à presidência dos EUA, acha que a democracia é uma anedota. Não vale a pena contrapor que a tirania nunca nos livrou de anedotas. Veja-se, a título de exemplo de terceira ordem, a Coreia do Norte. Também não vale a pena argumentar que uma democracia pode ver surgir no poder um idiota, mas que, ao contrário das tiranias, tem mecanismos para que o idiota seja arredado do poder pela vontade popular. 

Mais importante, porém, do que cantar a superioridade moral das democracias sobre as ditaduras é olhar a para a saúde das nossas democracias. A possível nomeação de Trump não é um bom sintoma, pelo contrário. O que se está a passar no Brasil (onde não há inocentes, do governo à oposição, passando pelo poder judicial e as inomináveis elites sociais) é outro sintoma da doença que corrói o regime democrático. Por fim, na Europa, com a forma como o poder efectivo é exercido dentro da União Europeia, a doença apresenta-se em estado avançado. A democracia representativa não é uma anedota, mas está doente - mais doente do que se pensa - e, em muitos lugares onde vigora, pode morrer. Uma anedota faz-nos rir. Uma doença, a nós que amamos a coisa doente, deve-nos preocupar e dar que pensar.