sexta-feira, 11 de março de 2016

Haréns e Cavalos de Tróia

Pablo Picasso - El harén (1906)

A senhora Hermine Erdogan, mulher do actual Presidente da Turquia, achou por bem louvar a instituição do harém. Afirma que era um centro educativo que preparava as mulheres para a vida. E não contente acha mesmo que poderia ser uma inspiração para a actualidade. Uma inspiração, note-se. A cada um as suas opiniões e eu prezo a liberdade de expressão. Não estou sequer interessado em saber que tipo de pedagogia era usada nem, apesar de poder ser estimulante, quero saber o currículo que suportava tal projecto educativo, para falar ao modo do eduquês nacional, que promovia a preparação para a vida das afortunadas senhoras e meninas que faziam parte da instituição. Mesmo sobre esta não vou derramar moralidades. 

O meu problema situa-se num outro plano. Estas declarações surgem no âmbito mais alargado de um louvor insistente, por parte de Erdogan e agora da mulher, das instituições do Império Otamano e das tradições otomanas. Como conjugar esta revivescência da glória e das velhas tradições com o pedido insistente da entrada da Turquia na União Europeia? 

A questão não está apenas na diferença de hábitos, cultura e religião. Está no simples facto de que o Império Otamano foi, durante a sua existência, uma das ameaças principais para a Europa e o modo de vida europeu fundado no cristianismo e na cultura greco-latina. Só uma cegueira irremediável nos pode fazer pensar que os projectos de conquista e de dominação deixaram de ter sentido e que todo o planeta se converteu à liturgia dos mercados, substituiu o desejo de conquista e de dominação pela troca de caramelos e pacotes de arroz num mercado livre e concorrencial. 

Enfraquecidos pelas derrotas e pelo atraso tecnológico, muitos projectos de dominação e de conquista continuam a subsistir mais ou menos subterraneamente, estando apenas à espera do momento e da força para se manifestarem. Veja-se o exemplo alemão. O seu projecto de dominação falhou duas vezes, devido a derrotas militares. Parecia desaparecido. Dada a unificação, é o que se tem visto. Hoje domina a Europa através do Cavalo de Tróia do tratado orçamental. Não foi preciso disparar um tiro. Uma Turquia saudosa da grandeza otomana, em ruptura contínua com os valores de Kemal Atatürk, dentro da Europa não seria outra coisa senão um Cavalo de Tróia.