domingo, 6 de março de 2016

Olhares excêntricos

Max Ernst - The Eye of Silence (1933-34)

O falhanço total do marxismo [...] e o dramático desmembramento da União Soviética são apenas os precursores do colapso do liberalismo ocidental, a principal corrente da modernidade. Longe de ser alternativa ao marxismo e a ideologia reinante do fim da história, o liberalismo será a peça seguinte do dominó que cairá. [Takeshi Umehara]

Nós, ocidentais, deixamo-nos envolver demasiado nas nossas querelas particulares como se fossem a única coisa existente à face da terra. Ainda hoje somos vítimas dessa cisão que constitui a modernidade: liberalismo e socialismo. O que compreendemos quando lemos as palavras de Umehara, ou quando o mundo islâmico rejeita os nossos valores? O que compreendemos neste momento em que a crise do euro conjugada com a crise dos refugiados parece estar a iniciar aquilo que poderá ser a derrocada entrevista pelo pensador japonês? Continuamos, cada vez mais perplexos, agarrados à necessidade de fazer triunfar ou o nosso pequeno liberalismo ou o nosso irrequieto socialismo. A divisão entre liberalismo e marxismo ocultou uma outra, muito mais funda e estrutural: tradição e modernidade. A nós, ocidentais, a palavra tradição repugna-nos, mas aos outros? Aos outros, parece que não. Enquanto tudo parece desagregar-se, continuamos como aqueles jogadores de xadrez que, enquanto a guerra os envolvia, nem davam por ela, de tão concentrados no jogo. A cada um as suas pedras, brancas para uns, pretas para outros. Mesmo que, de fora, gritem que tudo cai, nem damos por isso. É preciso que sobre as nossas antigas tradições se erga o estandarte da modernidade, seja o do liberalismo, seja o do socialismo. Mesmo que isso signifique o fim do que somos.