sábado, 19 de março de 2016

Realidade deformada

Matthias Grunewald - The Entombment from Isenheim Altarpiece (1512-16)

Foi devido a W. G. Sebald que olhei com atenção para a obra de Matthias Grunewald. Na sua primeira obra publicada, Do Natural- um poema elementar, Sebald propõe uma deambulação poética (ou talvez uma investigação policial) em forma de tríptico, na qual Grunewald constitui a primeira parte. O meu interesse por este pintor da transição dos séculos XV para o XVI deve-se ao facto de ele, juntamente com Brüghel, o Velho, El Greco, Goya e até Van Gogh, ser apontado como um dos precursores do Expressionismo.

Como se sabe, o Expressionismo é uma reacção ao Naturalismo e ao Impressionismo, à pretensa natureza descrita - ou positiva - destes. O Expressionismo propõe uma visão marcadamente subjectiva da realidade, uma glorificação da vida interior que se expressa na arte. O fascínio que fui adquirindo pela pintura expressionista não é menor do que aquele que sempre senti pela pintura impressionista, aquela que o Expressionismo pretendia superar, se é que esta palavra tão ao gosto da dialéctica hegeliana, faz sentido em arte.

A expressão dos sentimentos do artista faz-se através de processos de deformação da realidade. E é isto que me interessa. A deformação da realidade era uma forma de expressão da subjectividade, que se diferenciava das objectividades da descrição naturalista ou da impressão dos impressionistas, propondo uma visão quase incomensurável com o real. A questão, porém, é que hoje em dia a realidade apresenta-se objectivamente deformada. A deformação deixou de ser uma expressão de uma subjectividade dilacerada em busca de uma expressão. A deformação já não pode ser lida como a intromissão da subjectividade na descrição do mundo. Ela tornou-se na descrição objectiva da realidade, de uma realidade cuja natureza é a deformação, como se Impressionismo e Expressionismo se tivessem casado no espírito do mundo.