terça-feira, 22 de março de 2016

Sobre os acontecimentos de Bruxelas

Tintoretto - Caim e Abel (1550 - 53)

Sobre os acontecimentos de hoje em Bruxelas. Há uma coisa que, para muitos ocidentais, é difícil de compreender. A História – isto é, a História política da humanidade – não é um passeio no Jardim do Éden. Se a imagem da paraíso serve, neste caso, para alguma coisa é para lembrar que os homens foram expulsos do paraíso e que a porta deste foi fechada para que lá não voltássemos. Nós vivemos, para continuar com a imagética bíblica, na terra onde Caim matou Abel. E a História não é outra coisa senão a repetição infinita do assassinato de Abel. Esta é a realidade do mundo em que vivemos. Não é de hoje nem de ontem. Aquilo que se passou em Bruxelas não foi outra coisa.

É inaceitável torcer a realidade e ver na pulsão assassina que matou em Bruxelas uma espécie de mão vingadora das malevolências que os ocidentais perpetram pelo mundo fora. Não foi um acto de quem busca a justiça. Foi um crime. Os ocidentais são inocentes? Não, não são. Nisso, porém, são iguais a todos os outros, coisa que muitos ocidentais, vá lá saber-se porquê, acham que não, que o mal está sempre e apenas do nosso lado. Por vontade de poder, interesse económico, ideologia ou crença religiosa, os ocidentais têm matado, tal como todos os outros. Os crimes praticados por ocidentais, porém, não são um álibi, nem uma justificação ou uma legitimação dos crimes de hoje. Isso seria supor que haveria uma parte da humanidade pura e imaculada e outra, a nossa, absolutamente viciosa. Também os crimes praticados anteriormente por outros não são nem álibi, nem justificação ou uma legitimação para os nossos. A verdade é que pertencemos todos à mesma espécie, partilhamos o mesmo ADN, e cada um de nós é, potencialmente, um Abel e um Caim.

Portanto, um crime é um crime. Não há crimes bons e outros maus. São todos uma expressão do mal. E a História – a História política da humanidade – não é outra coisa senão a manifestação desse mal, a manifestação da pulsão homicida que nos habita e que, a mais das vezes, se sobrepõe e aniquila a inclinação para o amor, para a amizade e para o entendimento. Uma das coisas que a nossa época ainda iluminista, na sua recusa de entendimento dos textos fundadores da nossa cultura, não entende é que, no grande palco da História Universal, não há inocentes. O livro do Génesis diz-nos isso através do mito da expulsão do paraíso. Mas o preconceito racionalista não é capaz de escutar os antigos mitos. Ésquilo e Sófocles também ensinam isso. Mas quem quer escutar os velhos trágicos gregos? E, agora, o que vai acontecer? Não se sabe já? Vai acontecer o que sempre tem acontecido, o crime desencadeia novos crimes. A História, essa deusa vindicativa, não acabou, como alguns pensaram. Está bem viva e, como sempre, sedenta de sangue, o seu alimento preferido.