domingo, 10 de abril de 2016

Indústrias de avaliação


Numa entrevista dada, em tempos, ao Público, Christophe de Dejours (psiquiatra e psicanalista, especialista em psicodinâmica do trabalho) referia o caso de um presidente de uma empresa que lhe dizia que o que mais odiava no seu trabalho era a avaliação dos seus subordinados. E acrescentava esse presidente: “a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas”. Isto que para qualquer ser racional que pense sobre os seres humanos parece óbvio, não o é.

Vale, assim, a pena observar um aspecto. Se se sente que as avaliações individuais (tratam-se destas e não de processos de avaliação geral da organização) não contribuem para melhorar o desempenho das organizações, privadas ou públicas, por que motivo o método é tão propagado? Por que razão se tornou em prática central do senso comum organizacional? A explicação não é muito difícil.

Por um lado, porque se montou uma verdadeira indústria da avaliação. Aquilo a que se chama cultura de avaliação, um eufemismo miserável, não passa de uma indústria de natureza parasitária, com interesses próprios em diversos níveis da vida social, desde a academia até às empresas de avaliação e aos centros de recursos humanos das organizações. É um produto parasitário que encarece os custos, não fomenta a eficiência, mas alimenta um conjunto de pessoas e empresas.

Por outro, porque o que está em jogo, a maioria das vezes, não é a melhoria do desempenho, mas a legitimação da dominação de uns sobre os outros. A avaliação individual mais do que melhorar as organizações predispõe ao controlo da consciência e da liberdade dos subordinados, ao controlo da sua vida. A legitimação é feita, muitas vezes, através de um processo que conduz ao cálculo de uma nota, o que dá uma aparência – obviamente, falsa – de objectividade. Trata-se da mobilização de um algoritmo para justificar aquilo que se pretender fazer com os que são avaliados.

Estas questões ligadas à avaliação nas organizações não são as essenciais, mas mostram como estas coisas operam na vida quotidiana e contribuem para a tornar miserável e infernal. São sintoma de uma cultura de ruína que mina os laços de solidariedade que devem existir entre as pessoas e acabam por degradar as organizações e ter um impacto muito negativo na vida das comunidades. Um exemplo acabado do niilismo contemporâneo.