sexta-feira, 22 de abril de 2016

Jogos do espírito

Francis Picabia - Figure triste (1912)

David Hume referia, entre os diversos princípios de associação de ideias, o princípio da semelhança. Por exemplo, um quadro sobre Lisboa conduz-nos a pensar na capital portuguesa. Este exemplo refere-se à semelhança entre objectos tidos como reais. Há outro tipo de semelhanças que não se refere à realidade, pelo menos à primeira vista, mas à linguagem. O quadro acima, de Picabia, tem por título Figura triste. De imediato, num espírito com um certo tipo de cultura, emerge a expressão cavaleiro da triste figura, o muito célebre cavaleiro andante D. Quixote de la Mancha. Esta associação, aparentemente arbitrária e pueril, não deixa de ter um efeito real. Esse efeito deve ser visto como um jogo a que o espírito se pode entregar para seu puro prazer. Um jogo de contaminação. 

Podemos olhar para o quadro cubista de Picabia e imaginar nele uma representação de D. Quixote. Podemos iluminar o espírito tortuoso do nosso cavaleiro manchego a partir das explorações geométricas e cromáticas da obra de Picabia. Esta aproximação entre objectos tão diferentes, proporcionada pela livre associação de expressões linguísticas próximas, não deve ser interpretada como um passo na descoberta de uma qualquer verdade, seja relativa à personagem de Cervantes, seja à do quadro de Picabia. Pelo menos da verdade compreendida como uma crença verdadeira justificada, tal como a concebeu, há muito, Platão. Trata-se apenas de um jogo onde o espírito se compraz. E é no puro comprazimento do espírito que a arte encontra o seu papel. Devemos, porém, ter sempre presente que, na vida dos homens, não há nada mais sério que o jogo.