quarta-feira, 27 de abril de 2016

Livro do Êxodo 5. Um povo de sonâmbulos

Umberto Boccioni - Group of figures related to scene of an urban crowd (1910)

Não celebrarás no deserto a festa, um dia, à sombra dos canaviais, a ordenaram. Tomado pela areia movediça, o corpo cede instante a instante e, no lento mover-se em direcção ao fundo, contamina-se de insectos. Multidões de varejeiras desenham uma prisão de asas, tão leve como as flores do nenúfar, e, nessa inquietação, sobeja ainda um sopro que de entre os lábios sai. A mão, assim lhe chamaram, acaricia as grades, e no vento por elas soprado há um frémito fatal que escurece a negra luz: sobre o mundo, ao arder, incendeia furacões, tempestades tropicais, as areias em convulsão, onde corpos, exaustos de tanto gritar, se tornam cediços, maleáveis, matéria friável a abrir-se à inconstância pegajosa dos sonhos.

Por aí caminha um povo de sonâmbulos, as nuvens tapam de folhas os que enfrentam as agruras sufocadas das areias, poeira solícita que ao alcatrão cobre e dos homens o escondem, como se ele, na síntese viscosa que o faz ser, cometesse um crime e em seu ser criminoso apenas velados espaços quisesse por morada.

Era um povo sem pátria nem castelos nem rios nem memória. Habitava a nudez e quando os homens se inclinavam para os seios das mulheres, estas olhavam a paisagem ao longe e deixavam a água escorrer dos cântaros de barro vermelho, cobriam de luto a cabeça e os olhos, olhos eram, fechavam-se à intensa cor do dia, agora um risco vazio num calendário de folhas ressequidas, herbário onde rosas, violetas e lírios se decompunham durante os meses de Verão, violentos meses eram.

Seguiam depois em frente, homens e mulheres, mas nem o deserto os acolherá nem lugar terão para a festa, um dia, na ordenação das coisas, ordenada lhes fora. Seguem calados o movimento dos astros, enquanto com os dedos desenham esfinges de água sólida sobre o silente fragor da terra.