quarta-feira, 13 de abril de 2016

O Silêncio da Terra Sombria - 22.

Albrecht Dürer - The Bishop's Castle at Trent

22. Árduo o tempo que espreita das ameias

Árduo o tempo que espreita das ameias.
De cima, avistam-se os campos em volta,
a terra escalavrada, carcomida pelo estio,
um lago onde nascem bancos de areia,
barcos esmagados pelo peso da água,
a tua fortuna a rolar entre seixos.

Cansado, deito-me no vento da tarde
e entrego-me a um sono de ervas azuis
espalhadas nos interstícios do soalho.
Viagem após viagem, o sol deixa um rasto
calcinado e o mundo, já morto, recompõe-se
na noite que galga as escadas do coração.

[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]