domingo, 24 de abril de 2016

Um regime decrépito


Passam hoje 42 anos sobre o último dia do Estado Novo. A designação Estado Novo era há muito uma caricatura. Vivíamos num regime decrépito, incapaz de evoluir e sem saída. Tenho bem viva em mim, numa memória dos meus oito anos, a imagem dessa decrepitude. Estava-se no Verão de 1964, e acompanho a minha mãe no acto de matrícula na terceira classe. A delegação escolar era no palácio Mogo de Melo, na altura quase uma ruína, bem longe daquilo que, felizmente, é hoje. Ao entrar, deparo-me com um ambiente sombrio, abafado, talvez com duas secretárias, onde dois professores – que me pareceram ter quase 100 anos – , de fato e gravata e com mangas de alpaca, escreviam lentamente, atazanados pelo calor sufocante de Torres Novas, em enormes livros de registo. Quase oiço, ainda agora, o ranger dos aparos das canetas sobre o papel. Por detrás das secretárias, penduradas na parede, as fotografias de outros dois homens que aparentavam ser ainda mais velhos que os professores. Eram os retratos do Doutor Salazar, o Presidente do Conselho, e do Almirante Tomás, o Presidente da República. Por uma janela semiaberta, entravam raios de sol. Iluminavam a poeira no ar. Eu tinha oito anos e nenhuma interpretação política brotou, naquela hora, na minha consciência. A imagem de decrepitude e desconsolo foi, contudo, tão vívida que, mais tarde, se tornou para mim o retrato fiel de um regime que, apesar de já velho e exausto, caiu apenas dez anos depois. E caiu de velhice. Foram os alicerces – sim, os jovens capitães foram treinados para serem os alicerces do regime – que ruíram e o edifício desabou. Sem grande estrondo.