segunda-feira, 9 de maio de 2016

A crise europeia e o espírito aristotélico

Elmer Bischoff - Europa (1957)

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirma que a Europa ainda é uma bicicleta mas sem ar nos pneus. Com esta pobre metáfora pretende abarcar a policrise, como lhe chama, que atinge a Europa. A principal crise, porém, é que a Europa actual rompeu com o jogo de equilíbrios fundador. De certa maneira, a Europa foi fundada num espírito que poderíamos chamar aristotélico. A virtude estaria no meio-termo, a equidistância de ambos os extremos de uma dada equação política. Isso significou um certo equilíbrio entre a direita e a esquerda, entre o espírito liberal e o espírito socialista ou social-democrata. A irrupção do ordoliberalismo e do neoliberalismo como possibilidades políticas únicas fez inclinar a orientação política para um dos lados. A velha mesotês (meio-termo) aristotélica foi abandonado, de forma temerária. E é esse abandono do exercício da ponderação e da busca do equilíbrio que abriu a caixa de Pandora, da qual começaram a sair todas as crises que têm emergido. Schulz diz que a Europa, enquanto comunidade, vencerá "se a maioria silenciosa puder ser novamente mobilizada pelos ideais" europeus. Isto, porém, é tapar o sol com a peneira. A Europa poderá resistir se conseguir voltar ao espírito aristotélico que lhe deu origem e que tem vindo a ser rasgado. Talvez assim consiga, paulatinamente, voltar a colocar os males dentro da caixa e fechá-la. Talvez.