sábado, 28 de maio de 2016

Ali também estão os deuses

Marcel Duchamp - A Fonte (1917)

Uma brincadeira de um rapaz de 17 anos levou uma série de visitantes do Museu San Francisco de Arte Moderna, nos EUA, a admirarem um par de óculos colocados propositadamente (e provocatoriamente) no chão pelo jovem bem-humorado. As pessoas aproximavam-se respeitosamente da “obra de arte”, mantendo a distância convencionada. Houve quem tirasse fotografias (ler aqui). Li comentários onde se verberava a tolice dos espectadores. A verdade, porém, é que a brincadeira com a arte moderna – que não é a primeira e, certamente, não será a última – levanta um inusitado problema. Talvez o público reverente do par de óculos não seja tão idiota.

Quase cem anos antes, em 1917, Marcel Duchamp, sob o pseudónimo de R. Mutt, envia um urinol de porcelana (denominado por ele A Fonte) para a Exposição da Sociedade de Artistas Independentes de Nova Iorque. O Presidente da sociedade rejeita a obra, alegando não tratar-se de arte. Encontramos em Nigel Warburton a argumentação corrente em sentido contrário. A Fonte é arte porque o autor “pegou num objecto vulgar do dia a dia, colocou-o de modo que o seu significado útil desaparecesse sob o novo título e perspectiva – criou um novo pensamento para esse objecto”. É a reconceptualização do objecto, a alteração semântica e a concomitante mudança de estatuto ontológico que o transformam em arte.

Entre o episódio de 1917 e o de 2016 percebe-se que a atitude do público se alterou radicalmente. Da rejeição do Presidente da Sociedade de Artistas (que pode ser visto como um porta-voz do público) até à admiração respeitosa dos óculos farsantes, em 2016, vai um longo caminho. Se a proliferação de objectos ansiosos, como A Fonte, de Duchamp, no campo das artes, pretenderia questionar os limites do que é e não é arte, dessacralizando-a, retirando-lhe a aura com que a cultura a tinha investido, o efeito, contudo, não deixa de ser surpreendente. Não são os objectos artísticos que perdem a aura, são os objectos banais e quotidianos que a ganham, desde que entrem em certos espaços.

Aqui devemos mobilizar as velhas categorias de Mircea Eliade, o sagrado e o profano. Observe-se o comportamento do público perante o par de óculos (aliás, o comportamento normal num museu ou numa galeria de arte). Uma atitude reverente e de admiração, marcada pela justa distância que se deve ter perante o que é sagrado e uma aproximação suficiente para que a graça presente no objecto artístico transborde para a nossa compreensão do mundo. Ora, perante estas situações, a questão que se levanta é o que é arte e o que não é. O público intuiu pelo menos uma coisa. A arte não depende da intenção do produtor do objecto. É arte aquilo que entra no espaço sagrado, que é arrancado à dimensão profana da existência e, por ter entrado num certo topos, é sacralizado. O topos sagrado pode ser físico (um Museu, uma galeria, etc.), mas pode ser meramente conceptual. Um espaço mental, composto por conceitos, juízos e argumentos, onde se sacraliza como arte certos objectos que são de alguma forma atraídos para esse espaço.

Dir-se-á, então, que tudo pode ser arte. Só a ideia indispõe muita gente. A resposta a esta questão começou a ser dada logo no início da Filosofia, por Tales de Mileto: tudo está cheio de deuses. Tudo tem um carácter sagrado. Sendo assim, tudo tem em si a possibilidade de ser trazido para o espaço sagrado e ser reconhecido como objecto artístico. Não é a intenção do autor que dá o estatuto artístico a um objecto. É a unção que lhe é conferida, é o estar num certo espaço sagrado (museu, galeria, templos, etc.). O par de óculos jocosamente deixados no chão por um adolescente bem-humorado ganhou o estatuto de arte porque o espaço onde estava o investiu com esse estatuto. O objecto articulava-se sintacticamente com os outros objectos e integrava-se, já sem qualquer inovação, no campo semântico da arte. O que esta história tem de mais interessante é a revelação de que a autonomização da arte relativamente à religião é impossível. O sagrado volta sempre, nem que seja sob a forma de uns óculos provocatoriamente postos ali para testar o público. E o público respondeu compreendendo, como Tales e Mileto, que ali, naquele singelo par de óculos, também estão os deuses.