sexta-feira, 20 de maio de 2016

Da presunção de superioridade moral da esquerda

 Adolph von Menzel - The Iron Rolling Mill

Uma das coisas que mais indigna as pessoas de direita é a ostentação, pela esquerda, de uma presumida superioridade moral. Esta presunção não vem claramente do facto dos indivíduos de esquerda serem mais virtuosos moralmente que os de direita. Não é um problema de consciência moral singular. Também não vem de qualquer constatação empírica que, hoje em dia, possamos fazer dos regimes políticos não democráticos, onde só a esquerda governou. A história dos últimos três séculos ajuda, porém, a perceber o fenómeno. Ajudar a perceber um fenómeno não significa, todavia, que forneça argumentos suficientes para justificar a sua racionalidade. Três acontecimentos, da história mundial, são centrais na emergência e manutenção dessa crença difusa acerca da superioridade moral da esquerda. A história não justifica, embora ajude a compreender.

Comecemos por onde começou a divisão, a Revolução Francesa. Na Assembleia Nacional, os partidários do Ancien Régime sentavam-se à direita do presidente, os adversários estavam à esquerda. O carácter iníquo do Ancien Régime, pleno de privilégios para uns e de exacerbadas corveias para outros, de estatutos sociais completamente fechados, etc., colou-se, talvez de forma indelével, à direita, mesmo quando a direita é, pela sua própria natureza liberal, adversária do Ancien Régime. A iniquidade do Ancien Régime era de tal modo clara que mesmo revolucionários moralmente pouco recomendáveis, como depois se viu na época do Terror, pareciam um catálogo de virtudes morais e cívicas. A direita que estava em causa, porém, era uma direita feudal, digamos assim.

Um segundo acontecimento histórico chega-nos de Inglaterra. Está ligado à Revolução Industrial e, fundamentalmente, à forma como, através de expedientes legais (absolutamente imorais), como a Lei dos Cercados, se constituiu o proletariado que trabalhou nas fábricas da Inglaterra dos finais do XVIII e no XIX. A destruição dos velhos direitos medievais atirou uma quantidade incalculável de gente livre (uma ironia, livre do senhorio mas também da terra que a sustentava) para a proletarização e para condições de trabalho atrozes. Quando os movimentos operários nasceram, quando a esquerda social emergiu, a imoralidade dos processos de expulsão dos campos e da situação nas fábricas vai contribuir, também ela, para colocar o rótulo imoral à direita política que sustentou o processo e, ao mesmo tempo, dar uma caução moral aos partidos operários. A direita que está em causa, neste caso, aproxima-se já bastante da direita liberal, e pouco tem a ver com o caso francês.

O terceiro acontecimento está ligado à história do século XX e à subida ao poder dos fascismos e do nazismo. E estes movimentos subiram como forma de poder das direitas nacionalistas. Com carácter ora mais totalitário, como nos casos de Itália e Alemanha, ora mais ditatorial-paternalista, como no caso de Portugal, estes regimes, claros inimigos dos movimentos operários mas também da democracia liberal e do liberalismo clássico, tinham práticas políticas e sociais que feriam os princípios, por frouxos que fossem, de qualquer consciência moral. Embora por essa Europa fora as esquerdas não tenham sido as únicas forças políticas a oporem-se-lhes, foram, na verdade o grande motor de denúncia e de oposição. Em Portugal, porém, só as esquerdas se opuseram sistematicamente ao salazarismo, enquanto as direitas, com a exclusão da ala liberal de Sá Carneiro (um pequeno clube de meia dúzia de membros) durante o marcelismo, estiveram completamente comprometidas com o regime. Também isto contribuiu para esse sentimento de superioridade moral da esquerda, mesmo que o exemplo da Revolução Bolchevique fosse, desde o início, moralmente muito pouco recomendável.

Esta descrição histórica justifica a presunção de que a esquerda, hoje em dia, é moralmente superior à direita? Não, não justifica. Pois esquerda e direita são conceitos mutáveis, não é sempre a mesma direita que está em causa, nem sempre é a mesma esquerda que reivindica essa superioridade moral. Também sabemos que regimes políticos onde a esquerda eliminou a concorrência política se transformaram em regimes de grande abjecção moral. Embora a política nada tenha a ver com a moral, os movimentos políticos, por necessidade instrumental de legitimação perante a opinião pública, reivindicam para si posições morais. Num próximo post far-se-á uma análise das posições morais/imorais das direitas e das esquerdas que existem nos regimes democráticos.