domingo, 29 de maio de 2016

Livro do Êxodo 10. O endurecido coração

Jim Dine - Heart

Endurecido, o duro coração entrega-se às trevas da manhã, e no rasto sombrio ergue, tão alto, a vara de salgueiro. Encostado ao bordão de cinza, deixa-se flutuar, como se fora máquina de aço inoxidável, tão pura e tão inoxidável, tão tonitruante máquina era o coração. Árvores cobrem-se de folhas e, num prenúncio do tempo a vir, juncam de sombras, tão sombrias, o chão. Ali, naquele território sombreado, os cães arrastam-se, entre leves ganidos, em busca da floresta, da casa que um dia por morada tão demoradamente haverão de ter. O Sol, o cintilante astro de ruídos e tumultos, contrai-se, torna-se a cada dia que passa mais pequeno, arrasta pelos céus o perdido fulgor de forasteiro, aquele a quem nestas casas por hóspede não se quer.

Severas imagens assim se projectam diante do olhar, os jardins suspensos por cordas de sisal, ranúnculos, anémonas, jacintos-de-água e uma violeta de ferro vinda das terras da monção, negras praias de mar ondulante, um súbito tremor na tremura tremeluzente do horizonte. Se pudesse contar-te um conto de fadas, príncipes, leves princesas, se a minha voz se soltasse do silêncio, compreenderias a férrea violeta, nestes jardins à gravidade tão avessos. Acode-me uma palavra de névoa, mas logo a esqueço, e se me inclino para dizer o teu nome, suave delíquio atormenta-me a fronte, dobra-a em direcção à sombra e recolhe no segredo, no secreto sigilo, as palavras, todas as que tinha para dizer.

Em silêncio olho as falenas. Anunciam os odores que aos pés paralisam e os prendem às janelas, onde o tempo se vê passar, entristecido de a si se ter perdido no rio que não desagua, nessas águas tintas de sangue e grandes cardumes, os peixes que fogem das manhãs marítimas, da maresia que dissolve o mar e o deposita na areia da loucura, da imprudência de um coração endurecido, entregue à insensatez do excesso, às severas imagens que o olhar vê projectadas no ecrã da memória. Atravessado bem no centro por um triste, tão triste, caminhante, o coração, no duro pulsar dos dias, envolve-se na crosta, uma terra quebradiça e quase castanha, que o sangue ao secar, no processo lento da evaporação das águas, sobre ele faz cair, numa precipitação ruidosa, que até os olhos, tão serenos perante a estrídula tonitruância, se calam.