segunda-feira, 16 de maio de 2016

Livro do Êxodo 8. O anjo aquático

Edward Burne Jones - O anjo (1881)

Feriu o pó e levantou as suas tremendas asas, erguendo-se. Não era pássaro, nem máquina que pelo engenho voasse, mas simples anjo, daqueles que desfilam em procissões de aldeia, vestidos de branco, o rosto coberto de suor e os pés exaustos, a tanta erva pisaram. Subiu, enquanto na terra alteavam-se vozes à luz vagarosa e sombria da macieira.

Nos outros dias, colava-se à parede e aí ficava, imagem era, tão estático, no rosto um medo se lhe desenhava, tomava conta das faces, invadia lábios, caía em borbotões pelo queixo, levemente recolhido, inclinado sobre o peito. Nas asas azuis tinha então escamas por penas; era um anjo aquático, habitava os poentes na fina dobra da praia.

Quando não havia procissão e assim se cobria de asas  escamadas de azul, envergava uma túnica de cíclames e cruzava as delicadas mãos sobre o peito. Nesses dias, não voava, nem procurava do mar as águas. Olhava, olhava, olhava para o indefinido ponto onde a geometria das horas nascia e traçava mapas em sua mente, trabalho de geógrafo perdido em funestas dunas já desfolhadas pelos desertos de areia.

À noite nunca o mensageiro dormiu. Por vezes, despia-se. Horroriza-o o vazio lugar do sexo e cobria com as mãos o rosto, espelho algum devolveria a cegueira da sua vergonha. Cansado, deitava-se em cama de pedras e sonhava com searas de trigo a secar sobre as águas marinhas, peixes de pão secos pela inclemência de um sol, a primavera o esventrara.

Um dia, veio de entre as algas um pássaro e olhou-o, depois inclinou tão ao de leve a cabeça e voou para norte. Um silêncio de carvão soltou-se do fundo da alma e o anjo, agora um querubim, pela primeira vez, sentiu lágrimas. Adormeceu sobre as pedras e quando acordou doíam-lhe as costas. As asas, um simples papel de seda, desprenderam-se. Quando despiu a túnica, a nenhum corpo a luz iluminou.