quinta-feira, 12 de maio de 2016

Perplexidades de um muito antigo maoista



A Grande Revolução Cultural Proletária foi lançada faz, dia 16 de Maio, 50 anos. Resultado de uma tremenda luta pelo poder dentro do Partido Comunista Chinês, saldou-se por uma enorme tragédia. Contam-se por centenas de milhares os mortos em consequência da iniciativa de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung). Deixo de lado, pois conheço relativamente mal, a realidade da tragédia chinesa e concentro-me numa outra coisa. No terrível fascínio que o acontecimento teve na juventude ocidental. Incluo-me, durante a minha pós-adolescência, no campo dos fascinados, embora me tenha afastado desse fascínio ainda nos verdes anos. Sobre esse fascínio de pelo menos duas gerações, há coisas que continuam a deixar-me perplexo. Há também coisas que aprendi com essa minha experiência político-ideológica.

O que me deixa perplexo é a cegueira desmedida que caiu sobre muitos e muitos jovens, por todo o Ocidente, que estavam bem longe de serem completamente idiotas. Como é que a razão, transtornada pela imaturidade e fascinada pela coreografia revolucionária, se tornou acrítica? Basta olhar para os materiais propagandísticos para perceber que aquilo tresandava a irracionalidade por todos os lados e que só poderia acabar mal. Como é que fotografias ou cartazes onde se viam grandes massas guiadas por um homem, o grande timoneiro Mao Tsé-Tung, seduziram tanta gente que detestava o espírito de rebanho e que não tinha qualquer disponibilidade para seguir um pastor? Como foi possível que a imagem de multidões de jovens a recitar o livro vermelho, como se estivessem numa madrassa comunista e em pleno ritual litúrgico, não fizesse soar o alarme?

Há uma resposta óbvia: a natureza religiosa do acontecimento. Uma religião que erguia um homem à condição de deus. Na verdade, tudo o que se via era encenações rituais e momentos litúrgicos em torno de um Mao Tsé-Tung mitificado, despojado dos seus traços humanos, como já tinha acontecido com Estaline, Mussolini, Hitler e, embora menos, com Lenine. Esta religião veio suprir nos jovens intelectuais a carência de Deus e da religião. Contaminados pelas vulgatas marxistas ou pelo zumbido nietzschiano da morte de Deus, estas gerações encontraram no maoismo um sucedâneo da aspiração mística ao absoluto que as animava. Isso também aconteceu, nas gerações anteriores de intelectuais, com o fascínio pelo comunismo soviético ou pelo nazismo e o fascismo. Ora o facto de as gerações anteriores terem fracassado, de se ter descoberto que aqueles apelos ao absoluto eram falsos e letais, não foi suficiente para a razão funcionar e impedir o fascínio. Porquê?

Haverá múltiplas respostas. Centro-me numa que combina um traço ontogenético ligado à idade e um traço cultural da modernidade ocidental. O que desencadeia a adesão maciça é a promessa do paraíso. O cartaz mostra-o claramente: a revolução cultural promete um mundo novo. Quando se está nos verdes anos é-se um juiz implacável do velho mundo. Aos nossos olhos, ele está condenado e é preciso, o mais depressa possível, substituí-lo por um novo, mais justo, mais belo, mais fraternal. Este é o traço ontogenético e diz mais sobre a imaturidade da pessoa do que sobre a maldade ou bondade do velho mundo. Há contudo um traço cultural que tem a sua raiz no início da modernidade. Trata-se do culto do começar tudo de novo. Os seus modelos cognitivos encontram-se no cogito cartesiano e na tabula rasa de John Locke. Estes modelos passaram do campo do conhecimento para o campo social e estão na génese do culto das revoluções (a gloriosa revolução, em Inglaterra, ainda no XVII, a revolução americana e a revolução francesa, no XVIII, e a revolução industrial, na transição do XVIII para o XIX). Este modelo cultural, baseado num começar tudo do princípio, e a imaturidade ontogenética explicarão, pelo menos em parte, o fascínio pela irracionalidade da revolução cultural chinesa.

O que aprendi com a minha breve passagem pelo maoismo nos anos quentes do pós 25 de Abril? Aprendi duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, que não tinha como destino na vida fazer política. Apesar de ser um espectador comprometido e atento do espectáculo político, a política enquanto acção não me interessa para nada. Compreendo bem, demasiado bem, o fenómeno do poder e da luta por ele, mas não me interessa. Em segundo lugar, esta minha experiência conduziu-me a uma posição política a que costuma dar o nome de aristotélica. O importante é o equilíbrio, o meio-termo, entre as partes em confronto. A experiência de fascínio pela irracionalidade política tornou-me, como reacção e desde há muito, um anti-utópico inveterado. Utopias de sociedades perfeitas, através da mão invisível do mercado ou do planeamento central, fazem-me urticária. O importante é que os homens tenham opiniões contrárias e que, na vida prática, vão fazendo acordos. Acordos precários porque na vida tudo é precário e transitório. Não há nenhum mundo novo à nossa espera. A única coisa que nos espera é a morte.