sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poesia, para quê?

Albert Rafols Casamada - Nuevos proyectos de poesía (1968)

A minha crónica quinzenal no Jornal Torrejano.

A poesia, quando entendida ao nível do senso comum, é vista ou como expressão de sentimentos ou como arma de transformação do mundo. Ela, porém, nada tem a ver com a expressão de sentimentos pessoais. Ainda menos é uma aliada dos transformadores do mundo e da história. Um poema é, como salientou Octavio Paz, uma máquina que produz anti-história. Esta ideia é fundamental para perceber essa estranha coisa que é criar textos que colidem propositadamente com a linguagem da comunicação e a visão corrente do mundo e da história. Textos obscuros onde o sentido vacila, apesar do ritmo sedutor que os habita.

A poesia é, mais que tudo, uma luta com o tempo, um corpo a corpo com o fluir da temporalidade. A idade moderna fez entrar na consciência dos homens a ideia de progresso. Progresso moral, social, tecnológico. A poesia resiste a louvar-se em tal ideia. Porquê? Porque o progresso implica o fluir do tempo, a sua passagem, aquele trânsito que nos há-de conduzir do pior para o melhor. Ora o fluir do tempo implica também a nossa morte. As sociedades tradicionais eram organizadas de uma forma cíclica. Valorizavam o eterno retorno das estações e celebravam-no. Era a sua forma de lutar contra a história e a morte.

As sociedades modernas perderam a consciência do tempo cíclico, do eterno retorno do mesmo, e a retórica do progresso – que ainda hoje anima alguns exaltados – desfez o véu ilusório, mas fundamental para dar sentido à vida, de um tempo que sempre retorna. Ficou a poesia. Ela é o dispositivo que resta na luta contra o tempo, na busca da experiência mítica, na reconstrução de um véu de ilusão que nos permite aceitar a vida e a morte. Por isso, ela luta com e contra a língua, destrói-lhe os hábitos, obscurece o significado, conflitua com a gramática, para que desça até aos homens uma linguagem mais pura e original, não maculada pela história, e lhes proporcione a ilusão que eles precisam para viver e para aceitar a sua inelutável mortalidade.