segunda-feira, 13 de junho de 2016

A ameaça do terror

Ana Peters - Divertimentos bajo cristal (1996)

O massacre de ontem, em Orlando, EUA, é uma novo acto de uma peça que visa, antes de mais, tornar claro que nenhum ocidental goza, hoje em dia, de segurança. Tem pouco relevo, para a situação, se o autor do massacre era ou não mentalmente perturbado. A admissão da tese da perturbação mental não traz qualquer conforto perante o terrorismo islâmico. Pelo contrário, sabemos agora que um novo campo de recrutamento - ou de adesão virtual - existe e que se torna ameaçador para a segurança do mundo ocidental, o campo dos mentalmente perturbados. 

Estas campanhas de terror não são, como alguns parecem crer, actos de punição da intervenção ocidental no Médio-Oriente. São actos estratégicos de um conflito perspectivado a longo prazo, a muito longo prazo. Visam conduzir as sociedades ocidentais a um processo de desintegração, pondo em causa dois bens políticos essenciais: a segurança e a liberdade. Aterrorizados, os ocidentais podem perder o gosto pela liberdade e sentir o desejo de entronizar adeptos de políticas securitárias e destruidoras do modus vivendi que caracteriza as democracias liberais.

Seja como for, pode muito bem acontecer que quem produz este tipo de acções esteja mentalmente perturbado, mas há uma coisa que podemos ficar cientes. Quem enquadra estas acções sabe muito bem o que está a fazer. Sabe que a História não se faz no curto prazo e que é preciso semear agora para colher daqui a dezenas ou centenas de anos. Mais, está confiante de que o Ocidente perspective tudo isto como uma questão de moda e que, como toda a moda, com mais segurança ou menos liberdade, em breve passará. Confia que, seduzidos pelo instante e pela ausência de finalidades gerais, os ocidentais descurem o longo prazo e a eternidade. Quem está por detrás disto está convencido que não apenas Deus mas o tempo e a História, para não falar da demografia, está do seu lado. A ameaça do terror veio para ficar.