quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Feira Quinhentista


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Este ano o Município de Torres Novas leva a efeito, pelo sétimo ano consecutivo e no âmbito das Memórias da História, a recriação ficcional de um dos momentos importantes da história do concelho. Não é do seu tema – D. Jaime de Lencastre no tempo das Confrarias –, do qual nada sei, que quero falar mas deste tipo de eventos. Há quem veja neles quase uma encarnação do mal absoluto, uma distorção da verdadeira História e, além do mais, um malbaratar de dinheiros públicos. Apesar de não frequentar este tipo de eventos, percebo muito bem a sua pertinência.

Na verdade, ninguém quer fazer destas feiras reconstituições históricas efectivas e com valor científico. Estes acontecimentos não pertencem ao domínio da ciência histórica e da alta cultura mas à indústria cultural e ao entretenimento. Ninguém que os frequente pensará que está a reviver literalmente a época que eles referem. Estamos perante ficções light, as quais não deixam, porém, de ter um importante papel político e social.

Do ponto de vista político, o que emerge, ao primeiro olhar, é que este tipo de festividade é uma consagração do poder do momento. Aparentemente, é. Mas só na aparência, pois ninguém ganha eleições por promover estas iniciativas. A importância política vem, de facto, de outro lado. Estas feiras fazem parte de um sistema de reforço das identidades locais e representam uma forma de as manter viva contra a erosão do tempo e as dinâmicas da modernização. Este reforço faz-se pela convergência do apelo à grandeza passada e pela iniciativa do presente. Ao lembrar o passado, o concelho torna-se mais vivo no dia de hoje.

Por outro lado, a importância social não é menor que a política. Estamos perante uma festa cívica. Curiosamente, é uma festa cívica que mobiliza as pessoas em vez de as afastar. Quem vai a este tipo de entretenimento obtêm dois tipos de satisfação. Em primeiro lugar, a participação propriamente dita na festa, o encontro com o outro, o reforço do laço cívico. Em segundo lugar, por muito ficcionais que estes acontecimentos sejam (e são-no), eles fornecem uma consolação ao nosso desejo, insaciável e irrealizável, de uma memória histórica que enquadre a nossa existência precária. E é nisto, que não é pouco, que reside a pertinência e a importância destas festas.