sexta-feira, 24 de junho de 2016

Bad feelings

(foto daqui)

Tinha-me deitado quase às duas da manhã. Acordei por volta das sete. A primeira coisa que fiz foi consultar os jornais online. O Brexit tinha vencido. Pensava que a permanência venceria, embora quando me deitei, tendo em conta as reacções no The Guardian, mas também da cotação da libra, aos resultados de Sunderland e de Newcastle, tinha a sensação de que a saída podia ganhar. Posso estar de acordo com Rui Tavares quando escreve que a emigração e o nacionalismo foram muito mais decisivos para o resultado do que a preservação da democracia. Posso até estar de acordo com Francisco Louçã de que a União Europeia é um projecto falhado. Mas o que me atormenta mais, enquanto cidadão europeu, é o enorme buraco negro em que se tornou o futuro.

Julgo que ninguém, com um módico de racionalidade, faz a mínima ideia do que vai acontecer a seguir. Como vão evoluir os nacionalismos em França, na Holanda, na Áustria e mesmo na Alemanha e nos países nórdicos. Que consequência terá este resultado para o próprio Reino Unido e até para as eleições espanholas? E o impacto em Portugal, numa economia tão frágil e numa sociedade civil incipiente? Como irão comportar-se, nos próximos tempos, os mercados onde as dividas soberanas se alimentam? Para dizer a verdade, nem sequer se sabe se esta saída pode ter consequências positivas. Perante uma situação inédita, o cálculo das consequências tende para o risível. A razão calculadora, ela que foi derrotada nas urnas pelos feelings do eleitorado, mostra nesta hora os seus limites.

Como ao eleitorado britânico, restam-me os feelings. Tenho o sentimento de que o projecto europeu, aquele ideal da unidade e a solidariedade entre os povos europeus, morreu ontem. Ele estava doente há muito, o eleitorado britânico, piedosamente, eutanasiou-o. Este é o sentimento mais forte, quase uma expressão de luto por uma boa ideia que esbarra nos recifes da realidade, isto é, nas velhas razões históricas. Este é o sentimento mais forte, repito. Os restantes sentimentos são, devido às trevas em que estão mergulhados, negros. Não me parece que o mundo que abriu a porta no dia de hoje seja melhor e mais promissor do que aquele que se encerrou ao fechar das urnas no Reino Unido. Perante a actual situação não tenho razões esclarecidas, boas ou más, para falar do futuro. Restam-me feelings, bad feelings.