domingo, 19 de junho de 2016

Da eterna imaturidade

Mary Cassatt - Two Children at the Seashore (1884)

Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho. (Platão, 22 b)

A espécie humana tem o condão de nunca deixar de me surpreender. A fonte da surpresa nem sequer é a maldade. A origem reside na tendência de muitos adultos – adultos biológicos – se manterem numa fase de imaturidade que os assemelha a crianças na primeira infância. Tudo gira em torno das suas pessoas. Sonham com malfeitorias e desconsiderações que os outros tecem no recôndito da alma ou em obscuros lugares de poder. Tudo para as afectar, claro. São vítimas de uma conspiração, ora universal, ora particular. Então, uns propõem-se fazer umas maldades ou dizer umas maledicências pelas costas, outros prendem o burro, arrastando um doloroso amuo pela face mundo.

Este problema, para além de diminuir a qualidade da vida comunitária, é um indicador seguro de que os processos de maturação consolidados são muito mais raros na espécie humana. O sacerdote egípcio, no Timeu, dirigia-se a Sólon para acusar os gregos de serem eternas crianças. Evitou generalizar, mas se o fizesse não cairia, por certo, numa generalização precipitada. De facto, a pobreza da vida espiritual dos homens, a crença no ego e na importância deste, o centramento em si, tudo isto contribui para que muitos adultos, muitas vezes de provecta idade, se comportem perante o mundo e os outros como crianças. A maturidade nasce de uma capacidade que tem poucos cultores. Saber rir-se de si, saber quão risível se é e estar disponível para ser aquilo que se é, isto é, nada. A imaturidade, a eterna imaturidade, nasce da crença de que se é alguém, quando na verdade somos, como diz o Romeiro no Frei Luís de Sousa, ninguém.