segunda-feira, 6 de junho de 2016

Livro do Êxodo 11. Lançando vos lançarei

Mon Montoya - 5 de abril en Times Square (2000)

Lançando vos lançarei daqui, do lugar o mais desordenado, das praças maculadas pela impiedade das ervas, das amplas ruas tão fechadas ao trânsito, tão cego e tão sedento trânsito, com que um deus compõe, ao dedilhar o restolho das nuvens, a geografia da cidade. Um tumulto de flores, ainda eles o trazem pela cercadura dos braços, mas já a luz se entrega, ainda pela manhã, a uma agonia de velas arvoradas, como se tudo não passasse de um mar de algas e rochas, batido pelo vento que espalha, sob a copa das árvores, florestas de incêndios, bosques de luz, fogos tão húmidos que logo ergues, e nele te cobres, esse guarda-chuva, tão velho e desbotado, com marcas de silicone e um anúncio de máquinas fotográficas. Aí se escondem as sobras que sobram da memória imóvel e já devorada pelo punhal do dia.

Lançando vos lançarei uma praga de palavras, a contaminação das páginas do rio, o funesto desejo de a tudo perceber. Circulam na imóvel eternidade filas de carros e nas lojas há mulheres desfiadas a escorrer pela seda, outras leves como o pesado veludo, que cobre a porta onde, era um sábado de neve azul, alguém por ti chamou. Não penses que te deslocas pela cambraia das horas e assim da morte te escondes, como se fosses um universal vazio, o conceito amplo que a tudo, em seu seio, recolhe. O lápis, aquele de assimétrico bico quebrado, é o teu último reduto. De lá partem mísseis contra os inimigos escondidos na larga calçada da praia, sem barcos nem pássaros nem peixes; apenas filas árduas de carros em combustão se entregam à maresia do combate.

Lançando vos lançarei naturezas mortas, pintadas pelo sangue que corre das mães inanimadas por tantas palavras saídas de sua boca, naqueles dias em que os cães vinham pela rua e latiam tardes fora, a chamar, em desespero, os seus deuses, estátuas disformes, corpos avaros, luz alguma os teria, na sombra da roseira, tocado. As janelas fechavam-se e na oclusão da casa habitavam os moradores. Humedeciam os lábios e cruzavam as mãos antes de a noite cair. Os joelhos flectiam quando os músculos ao peso do aroma da terra cediam e um grito desenhava-se na madeira lavrada por mãos solitárias, azuis e suavemente ritmadas, balançando, até pelo silêncio se suspenderem e na ondulada respiração adormecerem, para nunca mais irromperem pela manhã.

Lançando vos lançarei pelas faces as pétalas apodrecidas no hálito dos pomares de ozono, estâncias primaveris que cobrem o tecto do tecto da cidade. Engavinhados, os viajantes pedalam, na surpresa da tarde, bicicletas de granito untadas pelo óleo de girassol. Fulguram no fim da estrada, se os olham dentro dos olhos; amadurecem, se os esquecem e logo se inclinam para a terra como pétalas puras, ao febril êxtase da queda se dão. Mais tarde, quando o ano for um imenso verão de incêndios, haverá uma súbita ordem de fuga. Na debandada da noite, os que viajam esperam inquietos no ocre  das estações de serviço, e se lhes oferecem um quarto de hotel, recusam com as mãos vazias e os lábios roxos pelo sono, a noite o esconde na agonia do regaço.