sábado, 18 de junho de 2016

Livro do Êxodo 13. A voz do bardo

Kazimir Malevich - Singer in the Chorus

De dia em uma coluna de nuvem para os guiar nos jardins de areia, entre rochas de cristal e quartzo cor de âmbar, tão ambarino o quartzo e tão lento o cristal. Não dormiam aqueles que punham os pés na poeira do caminho e moviam os músculos do corpo, quase incorpóreo, coberto por tecidos frustes, nimbado por uma luz sazonada pelas colinas da tarde, tão verdes foram essas colinas e agora adormecem tocadas pelo amarelo e pela cinza cinzelada pelo tempo, pela luz litoral da morte, pelo uivo dos rebanhos sintéticos que crescem no desaforo das cidades.

Havia estrias na pele das mulheres e ao longe, muito ao longe, ouvia-se, na orla do mar, o troar dos pássaros amontoados em manadas voadores. Se alguém a alguém um segredo queria dizer, os ouvidos recusavam o sussurro e embarcavam no ruído tardio com que as aves em debandada infestavam os ares, a vasta terra cobriam. Aí homens e animais sucumbiam à violência do comércio ou ao idílio das máquinas, oblíquas máquinas a semear de plástico copos entre mãos. As mulheres sangravam esquecidas pelos homens, presos ao álcool da loucura ou à falência máscula do desejo, sangravam, nelas, as trevas que haveriam sobre todos cair.

De noite em uma coluna de fogo para os alumiar e salvar das trevas, as que haveriam de vir, como sempre vêm, pelo sangue violáceo, quase húmido quase sólido, das mulheres. Dentro da luz, elas, as trevas, nascem e traçam mapas de urze pelo rosmaninho contaminada. Ele, o que não tinha nome, era uma tocha febril, incendiada de ardor, e cantava, com a sua voz de bardo, canções de marinheiros presos ao mar, olhos febris nas águas cor de esmeralda, acreditava-se, e corações feridos, sem força para bombear no corpo o avaro sangue, corações a ceder ao peso do nevoeiro, das serras calcárias ele vinha.

Se tudo estremecia, quando chegava a hora de estremecer, a memória riscava sulcos nos veios da pedra, símbolos de orvalho, sinais de neve, signos de água corrente vinda das fontes, as mais inesgotáveis. Então os caminhantes, homens, mulheres e crianças, punham-se ao caminho, arrebatados pela esperança, aquela que o desespero tece sobre a pele carcomida pelos dias. A morte, sempre tão volúvel, pela vida, como um castigo, os atirava, e eles iam, como se tivessem um destino. Alguém, na berma da estrada, de cabeleira azul, ateou um fogo de violetas e na combustão, a tudo consumia, pulsou uma sombra de lacre fiada na escuridão. Ouviam então a voz do bardo, tão pura mesmo se de cansaço enrouquecia, e seguiam-na em silêncio pela noite dentro.