quinta-feira, 23 de junho de 2016

Livro do Êxodo 14. O transbordar das águas

Caspar David Friedrich - Seashore with Shipwreck by Moonlight (1825-30)

Rebentaram os diques, depois os taludes, a barragem cedeu ao relâmpago de água e os barcos, de substância tão porosa, afundaram-se, em lenta cerimónia, colmeias presas pelos cabelos ao vento. Dali, daquele lugar de nome equívoco, todos se foram, porque tornando as águas, cobriram aos carros, em procissão chegavam, e por habitação lhes deram o fundo do mar. Os peixes resignaram-se aos novos companheiros, depois, comovidos, entregaram-se a um luto dorido por aqueles que na água a vida, tão mecânica, assim deixaram.

Tudo então transbordou: árvores, ervas, frutas vindimadas, alguns animais colhidos na voragem, perfeita voragem, dos dias. A vida ressumou incensos e as vozes, em delírio, entoaram, abrigadas no medo da hora, crepúsculos e hossanas. Se um deus tivesse vindo e em suas mãos trouxesse um ramo de oliveira, as tardes seriam pela inocência juncadas e na branca sombra desenhar-se-ia, imóvel, a estátua que arde no lugar onde as estrelas, entregues à cintilação, desaguam.

Como trevos soprados pela ganga da primavera, vieram, ao anoitecer, víboras em murmúrios de leite e mel, falcões bêbados de ar e altura, mais tarde, animais rumorosos, o bosque na frescura os ocultava. Trémulos, homens e mulheres deixavam descair a cabeça sobre os ombros, tomados pelo pânico da dúvida, embriagados pela luz da noite, enlouquecidos pela sombra do deserto. Ali se olharam e, sob a candeia que a tudo alumia, partiram, sem que palavra alguma viesse em suas bocas traçar, para mais tarde, o símbolo da manhã.