terça-feira, 7 de junho de 2016

Michael Haneke - O Laço Branco


Revisita ao filme O Laço Branco (Das Weiss Band) do realizador Michael Haneke. Uma obra magnífica situada nas vésperas da primeira Grande Guerra. O filme começa por ser uma exposição sobre o carácter precário da memória. O narrador, que participa de certa maneira da vida da comunidade onde os acontecimentos narrados se passam, reconhece, logo no início, que a memória dos factos, passados há muito, é imprecisa e que, apesar de sentir uma necessidade imperiosa de contar a história, o que sabe dela advém dessa memória vacilante e de "ouvir dizer".

Esta imprecisão memorial corresponde, porém, ao recalcamento de um conjunto de estranhos crimes ocorridos dentro de uma comunidade camponesa submetida quase feudalmente a um senhor. Esses crimes, nunca oficialmente desvendados, são obra de um conjunto de crianças. A subterrânea perversidade das crianças surge em contraponto com a subjectivação das normas morais dentro de uma comunidade protestante. O laço branco não é outra coisa senão o símbolo dessa subjectivação. No fundo, o filme trata do confronto entre a violência do bem, aquela que se exerce sobre as subjectividades infantis para a interiorização da norma moral, e a violência do mal que, dissimuladamente como os adultos, as crianças praticam.

Que o pastor, o mais zeloso dos moralistas, se recuse a encarar a perversidade dos próprios filhos, acaba por tornar evidente a cumplicidade entre a regulação protestante das consciências e o mal. Tudo isto, contudo, se dissolve na irrupção da guerra. Diria que se está perante um filme da contra-reforma, onde a subjectividade individual acaba por ser a fonte de uma perversidade oculta, mas que se manifesta continuamente. Essa falência da moral protestante perante a perversidade natural do homem fica em suspenso com o advento da Guerra de 1914-18. Nós que sabemos o que veio a seguir, percebemos como é que esse mal recalcado, na Alemanha, se veio a manifestar com o advento do nazismo. Resta questionar se não é ainda essa mesma regulação protestante das consciências, essa regulação cúmplice com o mal, que estará na base da atitude da Alemanha perante os países do Sul da Europa. Não será que a Alemanha – e todos aqueles que agora são tão alemães – não sofrem de uma memória tão precária e vacilante quanto a do narrador?