sexta-feira, 10 de junho de 2016

Sinais dos tempos


Começa hoje o Europeu de Futebol. As atenções, na Europa, estão voltadas para França, mas o essencial, por muito importante e emotivo que seja o futebol, reside na imagem que nos é devolvida por essa mesma França. Por um lado, o conflito laboral em torno da nova lei do trabalho. Por outro, o problema da segurança. Na guerra entre o governo e sindicatos jogam-se todos os equívocos das governações sociais-democratas (França é governada pelo Partido Socialista, não esqueçamos) em países subjugados (que se subjugaram, aliás sem consentimento referendado) ao Tratado Orçamental.

Como Pacheco Pereira explicou no congresso dos socialistas portugueses, o Tratado Orçamental é uma tentativa para criminalizar políticas sociais-democratas. De certa maneira, o conflito laboral em França vem recordar-nos isso e mostrar, mais uma vez, que a democracia na actual União Europeia deixou de funcionar. Os países podem fazer as políticas que quiserem desde que sejam aquelas que o Partido Popular Europeu quer. A Grécia é o caso mais conhecido, mas a França é um bom exemplo disso mesmo.

O que marca, porém, a França de hoje é o esforço securitário em torno do Campeonato da Europa. E esta situação é ainda mais reveladora do que a anterior. Não é apenas a democracia que se desvanece perante os nossos olhos, é a revelação da nossa grande vulnerabilidade perante a ameaça do terror. Estamos todos lembrados como o terrorismo conseguiu acabar com o rali Paris – Dakar. Até 2008, a prova unia a Europa à África. Passados oito anos é o centro da Europa que está sob ameaça. Como se tem visto, houve uma coisa que o terrorismo islâmico conseguiu: pôr fim à sensação de estarmos em segurança na nossa própria casa.

Se olharmos para a Europa dos finais dos anos 80, ficamos perplexos com a marcha da história. Era a experiência política mais invejada no mundo. Democracia, bem-estar, sensação de que o elevador social funcionava, e uma segurança a toda a prova. Em menos de 30 anos tudo isso desapareceu. Esfumou-se, perante o olhar atónito dos europeus, nas mãos de políticos utópicos. O que melhor retrata a situação é o desejo que o Campeonato da Europa de futebol acabe depressa. Aquilo que, noutros tempos, seria uma festa, é agora uma ameaça.