sexta-feira, 8 de julho de 2016

A bandeira na lapela

A minha crónica quinzenal no Jornal Torrejano.

Uma trilogia ou, melhor, uma troika. Maria Luís Albuquerque, Passos Coelho e Assunção Cristas. A direita portuguesa perdeu o decoro. A rábula das sanções a Portugal é o exemplo acabado do que é a política na Europa. A aposta é rebentar com o actual governo. O que terá este feito de mal para o país ser sancionado? Nada. As sanções dizem respeito ao não cumprimento do défice por parte da governação de Passos Coelho. Como é que as direitas, portuguesa e europeia, estão a montar o cenário? As sanções não seriam tanto devido à incompetência do anterior governo e da União Europeia, mas à suspeita de que o actual governo não é virtuoso e, eventualmente, não cumprirá as metas do défice no final deste ano. Penaliza-se preventivamente. O que significa isto?

Significa que voltámos à época do Terror da Revolução Francesa. Robespierre e os seus amigos tinham como princípio político a virtude republicana. A mais leve suspeita de falta de virtude conduzia a pessoa para o cadafalso, onde perdia, literalmente, a cabeça. Esta imagem hiperbólica tem a vantagem de mostrar a natureza daquilo que se está a passar. Qualquer dissidência – e a democracia não é o lugar onde a dissidência é fundamental? – é  punida sem apelo nem agravo. O senhor Schäuble não gosta do actual governo e parece apostado a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que ele caia. Ora aquilo que seria expectável da direita, ainda por cima foi ela que não cumpriu o défice, é que se demarcasse clara e distintamente, em nome do interesse nacional e da democracia, de qualquer sanção, baseada em que motivo fosse. Mas não. Ela parece deliciada com a situação.

E o interesse nacional? Esse, para a direita, resume-se a usar a bandeira na lapela. De resto, sonha em voltar rapidamente para o poder, para assegurar que o empobrecimento dos portugueses e a destruição de Portugal seja consumada. É preciso recordar os factos. O governo anterior, PSD-CDS, não cumpriu uma única vez a meta do défice, destruiu a classe média, empobreceu os portugueses e deixou o país à beira do colapso. Não acertou uma previsão. Enganou-se em tudo o que era essencial. Para ela, tudo isso, pouco conta. Vivemos num tempo em que os Robespierres, com a sua sanha virtuosa fundamentalista, ocupam o poder por essa Europa fora. Robespierres que não hesitam, ainda que simbolicamente, em cortar cabeças. E em Portugal? Por cá, parece que Miguel de Vasconcelos deixou uma herança genética persistente ou um conjunto infindável de bons alunos.