sábado, 23 de julho de 2016

Contentar-se em olhar

Tintoretto - The Miracle of St Mark Freeing the Slave (1548)

Sosícrates conta, nas suas Sucessões, que Leão, tirano de Fliunte, perguntou [a Pitágoras] quem ele era: «Um filósofo», respondeu. [Pitágoras] comparava a vida aos grandes jogos. Na multidão que neles está presente há três grupos distintos: uns vêm para lutar, outros para fazer comércio, e os outros, que são os sábios, contentam-se em olhar. Também na vida, uns nasceram para ser escravos da glória, outros do engodo do lucro, e outros, que são os sábios, apenas visam a verdade. (Diógenes Laércio, “Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”)

O triunfo dos escravos. A nossa sociedade, talvez como todas as outras, é o lugar onde os escravos triunfam. É isso que aprendemos ao ler as palavras atribuídas a Pitágoras. A glória da acção ou a busca do lucro são, na visão pitagórica, formas de escravatura. Nesta ideia está contida também a ideia de emancipação. Uma estranha emancipação. Esta não vem da acção mas do olhar, do contentamento que nasce de observar aquilo que se passa. O olhar surge relacionado com a verdade. Esta é aquilo que se revela aos nossos olhos. Só ela emancipa da escravatura, do estar submetido à ânsia da glória ou ao império do lucro.

Muita gente pergunta por que motivo tantos ocidentais, apesar de tudo aquilo que a nossa actual civilização lhes concede e que nenhuma outra teve ou tem a capacidade de conceder, são tão críticos com o modo de vida que é o nosso. Depois, procuram razões políticas ou outras, razões essas que, invariavelmente, se fundam nos últimos dois séculos de história. Não percebem que a fonte desse descontentamento radica na velha sabedoria pitagórica. Apesar da deslumbrante capacidade técnica e da riqueza, mesmo dos mais pobres, muitos ocidentais continuam a desconfiar que a nossa sociedade é um lugar de pura escravatura. Ao tornar o engodo do lucro e a glória do poder nos únicos objectivos dignos proclamou-se a escravatura – uma escravatura dourada e cómoda – no fim último de qualquer homem. Contra isso, porém, não há nada que se possa fazer a não ser, como ensinou Pitágoras, olhar. Só o olhar pode emancipar.