terça-feira, 5 de julho de 2016

Estatuto e prestação de provas

Pierre Rousseau - War or The Horseman of Discord (1895)

Mourinho equivoca-se. Anda há tanto tempo no mundo do futebol e ainda diz coisas como estas: “Sinto que tenho algo a provar a mim próprio, não aos outros”. A verdade é exactamente ao contrário. A ele próprio, Mourinho não tem nada a provar. Aos outros, porém, tem tudo a provar. Quem lhe paga o ordenado são os outros e é a eles que ele tem de provar que merece o que ganha. O futebol inscreve-se, como indústria de entretenimento, de forma plena nas sociedades modernas assentes na economia de mercado. O estatuto que se possui – e o estatuto não tem a ver com a minha relação comigo mas com os outros – está constantemente ameaçado pela concorrência e pelos resultados que se obtêm.

É provável que isto sempre tivesse acontecido nas sociedades humanas, embora certo tipo de estatutos fossem nas sociedades tradicionais, pela força do costume e da lei, preservados enquanto privilégios. Nas sociedades modernas, o estatuto é muito mais volátil. Para manter um alto estatuto social há que lutar continuamente pelo reconhecimento dos outros. Sem esse reconhecimento, o estatuto cai em três tempos. Não seja vitorioso no Manchester United, e Mourinho logo perceberá aquilo que tem a provar aos outros. Sem reconhecimento do outro não há estatuto, e este só se mantém elevado se se fundar em vitórias, seja no futebol ou noutro lado qualquer. O reconhecimento, fundado na luta contínua por ele, é o eixo central das sociedades liberais, das quais o futebol é o mais poderoso símbolo.