domingo, 10 de julho de 2016

Estrutura cerebral e posição política

Giorgio de Chirico - The Child's Brain (1914)

(…) Um grupo de investigadores de Londres, liderados por Geraint Rees – e incluindo o actor Colin Firth – explorou a relação entre as ideologias políticas e o volume estrutural do cérebro. Isto é, exploraram a possibilidade de o cérebro dos liberais [esquerda] e dos conservadores [direita] diferir na sua estrutura física. (…) A equipa de investigadores observou que as imagens dos cérebros dos liberais mostravam mais massa cinzenta no córtex cingulado anterior, a região do cérebro conhecida por estar envolvida na detecção e resolução de conflitos cognitivos. As imagens dos cérebros dos conservadores mostravam mais massa cinzenta na amígdala, que está envolvida no processamento de emoções, incluindo medo e recompensa. (…) Pode ser que as diferenças na estrutura e na actividade do cérebro contribuam para a emergência de diferenças ideológicas – ou que a adopção de determinadas perspectivas ideológicas  condiciona a estrutura e as funções do cérebro ao longo do tempo. [John T. Jost (2016), “O cérebro e as ideologias”, in XXI (Revista da Fundação Francisco Manuel dos Santos), n.º 7, Jun-Dez 2016, p. 78]

A relação entre a estrutura do cérebro e a ideologia política, ao descobrir-se a existência de correlação entre a estrutura cerebral e a ideologia política, permite fazer uma interrogação muito mais essencial do que aquelas que se levantam nos estudos que, de forma sistemática, mostram que – estatisticamente, note-se – as pessoas de esquerda são mais inteligentes do que as de direita. Devido ao alto valor que, nas nossas sociedades, se atribui à inteligência lógico-abstracta, este tipo de estudos gera sempre indignação nas pessoas de direita, indignação que as levam a menosprezar esses estudos, como se eles lhe trouxessem notícias que não são capazes de suportar.

O estudo citado por John T. Jost – Professor de Psiciologia e Política na Universidade de Nova Iorque e Presidente da Sociedade Internacional de Psicologia Política – diz-nos que as pessoas de esquerda têm mais desenvolvida a área cerebral ligada à detecção e resolução de conflitos cognitivos (serão mais inteligentes se utilizarmos a linguagem comum), enquanto as pessoas de direita apresentam um maior desenvolvimento na área ligada às emoções. O interessante nisto tudo é a espécie humana ter evoluído desta forma. Parece que do ponto de vista individual, não é grave, para a sobrevivência do indivíduo, ter uma estrutura mais desenvolvida ao nível da razão ou ao nível da emoção. Mas se olharmos para o desenvolvimento das sociedades democráticas, onde, com flutuações sempre pontuais, há um certo equilíbrio de forças entre esquerda e direita, percebemos que aquilo que é válido para o indivíduo pode não o ser para a sociedade.


Estas parecem precisar da tensão entre a inteligência racional e o domínio das emoções. Aquilo que aos olhos do cidadão comum parece ser uma luta dilacerante pelo poder surge, desde modo, como um ardil da própria natureza com vista a adaptação da espécie humana à realidade envolvente. Os indivíduos estão convencidos que seguem as suas próprias inclinações e perseguem aquilo que, aos seus olhos, é o bem para a comunidade. Ao olharmos para estudos como aquele que o professor Jost cita, descobrimos uma outra coisa. Descobrimos a necessidade da tensão entre direita e esquerda, entre o domínio da razão e o da emoção. O corolário político parece óbvio: o importante não é a vitória absoluta de um dos lados, mas o equilíbrio que resulta da ilusão de cada um dos lados estar do lado da verdade e do bem. No fundo, voltamos ao velho Aristóteles e à virtude do meio termo.