segunda-feira, 11 de julho de 2016

Futebol, comunidade e política


Um acto político que teve o apogeu em Paris, no jogo contra a França, e se prolonga no dia de hoje e, muito previsivelmente, durante muito tempo. Algumas pessoas - à direita e à esquerda - olham com desprezo para o fenómeno  do futebol, pois, entendem, é uma forma de alienação das grandes massas, que as não deixa tomar consciência real da situação em que se vive. O futebol seria uma forma de negação da política, de desvio das pessoas da realidade para o domínio da ilusão e das aparências. Não compreendem, porém, a natureza essencialmente política que o futebol possui e que se está a manifestar, nestas horas, de forma exuberante. E, claro, não me estou a referir ao eventual aproveitamento da vitória portuguesa pelos actores políticos do momento.

O futebol tem uma natureza complexa. Ele, como referimos num post anterior, é o modelo das sociedades actuais. Surpreendentemente, porém, ele é também um dos últimos bastiões da ideia de comunidade. A vitória de Portugal no Euro-2016 trouxe ao de cima um aspecto político que é pouco visível. Pessoas de direita e de esquerda, crentes e não crentes, ricos e pobres, homens e mulheres, enfim toda a gente se uniu em torno da selecção. O que este acontecimento nos diz é que todos, com as nossas diferenças e antagonismos de interesses, queremos continuar a ser portugueses. Ao celebrar a vitória de Portugal estamos a afirmar a nossa vontade de que a comunidade política de que fazemos parte persista no tempo. O futebol, ao nível da selecção, toca na dimensão mais fundamental da política: a da persistência da pólis. Sem esta, nenhuma outra actividade política tem razão de ser. Aquilo a que se está a assistir não é a um delírio colectivo de alienação da realidade, mas a uma manifestação exuberante do nosso querer e do nosso prazer da existência de uma coisa que tem o nome de Portugal.

É uma manifestação de nacionalismo? É. E o nacionalismo não pode ser uma coisa perigosa? Pode, mas não nestas situações. O nacionalismo é perigoso quando nasce de uma lógica de confronto dada nos conceitos de amigo e de inimigo. Foi esse nacionalismo que levou povos inteiros a precipitarem-se na primeira Guerra Mundial. Ora, o futebol transforma a lógica do inimigo na lógica do adversário. A França não era, ontem, a nossa inimiga. Era apenas o nosso adversário. Ganhámos à selecção francesa, mas não estivemos em guerra com a França. O futebol - noutros lados poderão ser outros desportos - permite gerir sabiamente o sentimento de pertença. Faz reviver o espírito de comunidade, sem que ele se transforme num nacionalismo agressivo que vê inimigos por todo o lado. Querem fenómeno mais político que este?