domingo, 31 de julho de 2016

Na boca de Chronos

A minha crónica em A Barca.

Chronos, o deus grego do tempo, devorava os seus próprios filhos. Isso era um mito, dir-se-á com alívio, e, para tranquilizar o coração, sublinhar-se-á que os deuses dos antigos mitos greco-latinos estão mortos. Por que razão, num tempo estival a convidar à indolência e aos banhos de mar, trazer a sinistra figura à luz do dia? Talvez porque essa história da morte dos deuses esteja mal contada, e Chronos continue bem vivo e insaciável. Talvez mais insaciável que nunca. Veja-se o que o deus fez à velha União Soviética e aos regimes que ela tutelava. Devorou-os num abrir e fechar de olhos. Gente com 40 anos mal se lembra que o mundo estava dividido entre duas grandes super-potências, naquilo a que se chamava Guerra Fria.

Mas o deus, insensato, não parou por aí. Todos nos lembramos ainda como a União Europeia, então CEE, era uma promessa radiante que parecia oferecer civilização, bem-estar, tolerância. Nas últimas décadas, mesmo à frente dos nossos olhos, o deus, esfaimado, foi deglutindo tudo isso, sem pestanejar. Também aquela ideia – mais desejada que vivida – de que o Ocidente era um lugar de paz e tranquilidade, sob o império da lei, é mastigada, em cada atentado terrorista, pelo voraz Chronos. Os europeus e os americanos tinham-se esquecido da guerra de 39-45 e, seduzidos pelo apolíneo véu da aparência, pensavam que a paz tinha vindo por mil anos. Não veio, o deus trabalha incessantemente para mostrar que uma ilusão é uma ilusão.

Uma outra convicção, a que nos é mais querida, prepara-se para ser abocanhada pelo insaciável deus. Trata-se da crença de que a democracia é o regime do futuro. Observamos, atónitos, o deus a levá-la à boca na Turquia, como aconteceu na Rússia, na Ucrânia ou nas infelizes experiências das primaveras árabes. Dentro do clube democrático da União Europeia, vemo-la ser cortada às tiras, na Hungria ou na Bulgária, para ser servida como acepipe. Tudo o que a história (essa máscara de Chronos) produz, a história o leva. Sentados à beira-mar a olhar o mundo, assistimos, impotentes, ao florescimento dos Trump, das Le Pen e de todos os outros que parecem ser legião. Também a democracia irá ser tragada pela boca do tenebroso deus.