quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um mártir da liberdade

Paul Gauguin - The Yellow Christ (1889)

A execução do padre Jacques Hamel, numa igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Rouen, França, não foi mais um atentado terrorista. Degolar um velho padre na Igreja perante os fiéis que ali se encontravam para a celebração da Eucaristia, foi um acto simbólico contra a fonte das nossas liberdades e dos valores ocidentais. Repito, o cristianismo – fundamentalmente, o cristianismo católico mas não só – é a fonte das nossas liberdades e dos nossos direitos, é a origem, juntamente com os valores clássicos greco-latinos e a ciência moderna, da nossa visão do mundo.

Recorro a uma autoridade insuspeita, a Jürgen Habermas, o filósofo alemão de esquerda, ateu e neo-marxista. No diálogo que manteve com Jospeh Ratzinger, Bento XVI, em 2004 e transformada em livro em 2005 (The Dialetics of Secularization), Habermas chama atenção para o facto do cristianismo ser o fundamento último da liberdade, dos direitos humanos e da civilização ocidental. E afirma que “não dispomos de opções alternativas. Continuamos a alimentarmo-nos desta fonte”. E acrescenta que os Estados liberais devem salvaguardar “os seus recursos culturais e morais, dos quais a religião faz parte”.

Tornou-se moda, nas nossas sociedades, desprezar o cristianismo, ridicularizar as Igrejas – em especial a Igreja Católica – e congratularmo-nos com o ocaso que parece atingir o cristianismo na Europa. Não se percebe que com isso estamos a minar o fundamento mais poderoso das liberdades ocidentais, a fonte dos grandes valores que são os nossos – e nos quais cabe a separação Igreja-Estado e a própria liberdade de não crer – e o cimento último que nos permite uma identidade e uma diferenciação no concerto das grandes culturas do mundo.

Nós não compreendemos ou não queremos compreender isto, mas há quem no mundo islâmico o tenha compreendido e parece não hesitar em abrir brechas num mundo que despreza as suas próprias origens. Há um velho sonho em certos sectores do Islão – e que não serão tão minoritários quanto nos queremos convencer – de uma comunidade única da espécie humana sob a lei do Profeta. O grande inimigo deste projecto foi sempre o cristianismo. Porquê? Por uma interpretação da relação do homem com Deus diametralmente oposta. No Islão, os homens são servos. Servos de Deus e submetidos aos seus representantes. No cristianismo, a relação com Deus não visa a servidão mas a liberdade. Foi esta liberdade que, ao longo de séculos, se foi descobrindo, desenvolvendo e que culminou no Estado de direito.

É por isso que a execução de Jacques Hamel o transforma não apenas num mártir da Igreja Católica, mas num mártir da liberdade. Alguém que não pode ser visto de forma diferente da daqueles homens que deram a sua vida no terrível desembarque nas praias da Normandia para que se pusesse fim ao terror nazi. Não sei se nós ocidentais compreendemos isso. Não sei se nós ocidentais percebemos que a destruição do cristianismo – um dos fins do radicalismo islâmico – arrasta consigo o conjunto de valores que sobre ele foram erguidos. Hoje em dia parece acreditar-se que se destruirmos os alicerces de uma casa esta ficará de pé. Não ficará, não sobrará pedra sobre pedra.