quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Destruir a humanidade

A minha crónica em A Barca.

Há uma pulsão que percorre todos os movimentos radicais, sejam estes de natureza política, religiosa ou político-religiosa. Essa pulsão manifesta-se na redução daquilo que é diferente ao idêntico. Os movimentos radicais sentem a diferença como uma ameaça e tratam de liquidá-la. O século XX está atafulhado de experiências desse género. Desde o terror nazi ao delírio, não menos terrorista, dos Khmers Vermelhos no Cambodja, passando pela experiência soviética ou a revolução cultural maoista, o projecto de destruir as diferenças em nome de uma identidade única fez, por todo o planeta, muitos milhões de mortos.

O século XXI nasce com uma outra manifestação desta pulsão. Se no século XX a liquidação da diferença tinha, fundamentalmente, contornos políticos, alimentada pelas grandes narrativas ideológicas, o XXI vê reemergir no palco mundial a luta contra a diferença em nome da religião. O islamismo – em diversas das suas versões – apresenta-se como um projecto de liquidação das diferenças e de redução de toda a realidade a uma identidade única, fundada no Islão. Pessoas e património histórico têm sido as grandes vítimas deste projectos. Não apenas a diferença actual – o facto de haver múltiplas crenças e descrenças – como os traços dessas diferenças no passado – livros, monumentos, etc. – são insuportáveis para estes engenheiros do igualitarismo identitário.

Podemos ver nestes processos do século XXI, como nos do século passado, a vontade de poder e de dominação de uns sobre outros. E isso não é errado, pois, em todos estes projectos, o poder para dominar é aquilo que os agentes do terror procuram. No entanto, o mais importante não é isso. O mais importante é que esta pulsão de destruição das diferenças é uma pulsão de morte. O que permitiu o assinalável êxito adaptativo da nossa espécie a todo o planeta foi a sua capacidade de diferenciar-se. A diferença é uma vantagem competitiva da humanidade. Estes projectos radicais visam, em última análise, a destruição dessa vantagem competitiva e, como consequência, a destruição da própria humanidade. Liquidar as diferenças significa matar o Homem.