sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Diário de um banhista - III

Paul Cézanne - Las grandes bañistas (1900-05)

Que venham as burkasburkas afegãs, daquelas que vão da cabeça aos pés. Não, não me converti ao Islão, mas começo a compreendê-los. Hoje, ó dia nefasto, quando me levantei, tudo estava ensolarado, fazia calor, e lá me arrastaram do café em direcção à praia, não sem antes, ainda em casa, note-se, me besuntarem de cremes por causa dos ultravioletas. Ele são cremes para a cara, cremes para o corpo, protector 30 e 40, numa conversa cabalística que mais parecia as deambulações esotéricas do Fernando Pessoa. O creme cai, olho-me ao espelho, apetece-me ulular e fazer a dança da chuva. Sinto-me um pele-vermelha. Contenho-me, haja decoro.

Lá vou, cantando e rindo, levado, levado, sim... Quando chego, piso a areia, os pés formigam. Anoto – mentalmente, não vá alguém pensar que levo o portátil ou aquele caderninho de capas pretas onde registo os ditos infelizes que me ocorrem – anoto, dizia, bandeira verde, maré baixa, pouca gente. A coisa não está completamente insalubre. Não sou banhista de barraca e lá se pousa o saco e toca a caminhar à beira-mar. Parece que faz bem aos músculos das pernas e da barriga e também à circulação. Melhor que os rebuçados do Dr. Bayard para a rouquidão. Uma pessoa caminha, caminha, os pés dentro de água, a areia molhada e dura, a água que vai e vem, como se não fosse esse o seu destino, e lá vou eu olhando os circunstantes, homens, mulheres, crianças, o sol bate-me no pescoço, nas costas não, pois o pólo é coisa que não dispo – há que poupar a humanidade à minha miséria – e continuo a anotar tudo, mentalmente, e sinto-me inclinado, cada vez com mais intensidade, para o Islão. Que venham as burkas, para homens, mulheres e crianças, que escondam os tristes espectáculos que ali se me apresentam. Desespero da humanidade.

Ao menos, penso contristado, fosse obrigatório o uso de fatos de banho do princípio do século passado, elegantes e frívolos, mas a esconder o excesso de humanidade que há em todos nós, mais nuns de que em outros. É isto que este pobre banhista pensa enquanto anda, anda, para fazer bem aos músculos e à circulação e à rouquidão. Paro, melhor, paramos. Vão ao banho e eu fico a ver, a olhar gaivotas, a contar barcos, a sonhar com sereias e a descobrir baleias. É nesse momento que alcanço a utilidade universal da burka, esse achado maior da humanidade, supremo conceito onde a igualdade se realiza e nos torna a todos menos infelizes.

Que coisa mais adorável é a praia. (averomundo, 2007/08/03)