sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diário de um banhista - V

George Seurat - Bathers, Asnières (1883-4)

Domingo. Hoje não há saga do pobre banhista. Os banhos de mar, quer dizer, as visitas à praia, estão, cá por casa, proscritos nos dias que outrora eram os do Senhor e, hoje em dia, não se sabe bem de quem são. É questão de sanidade mental, oiço dizer. Concordo. Mas uma regra não é uma lei, e há que desconfiar: quando chegará o dia em que a regra dá lugar à malfadada excepção?

Curiosamente, hoje que me levantei tarde, deu-me um súbito desejo de ir à praia e fazer jus à minha condição de banhista ou de pré-banhista. Tempo cinzento, uma aragem fresca, ameaça de chuviscos. É em dias assim que o corpo me puxa para o mar. Sonho com praias vazias, o vento a bater as águas, a cortar a face, o sol oculto por nuvens escuras e o extenso areal libertado da presença humana. Mesmo para os humanos a humanidade começa por ser um cansaço e acaba por se tornar um problema, um problema que tem todas as condições de ser irresolúvel. Hoje, domingo e tempo incerto, será possível que vá à praia?

Comprar os jornais, tomar café, dar um giro e ver as praias desertas. Ingenuidade minha, a humanidade oferece-me o esplendor dos seus corpos sobre as areias, dentro de água, corpos que se agitam como se temessem a imobilidade eterna. Há dias que odeio Heraclito. Resigno-me à derrota de Parménides e, melancólico, penso que ainda não será hoje que a excepção toma o lugar da regra. Vou fotografar naturezas mortas, materiais inúteis, lixos, a sombra projectada pela humanidade, a sombra de uma natureza morta que julga estar viva. Olha-se para uma praia e vê-se logo que, apesar das aparências, não está. A humanidade morreu, penso, mas é demasiado dramático para servir de proclamação.

Balanço: oitavo dia junto ao mar, idas à praia = 1 (uma), banhos de mar = 0 (zero). Não há razão para queixas. Nada melhor que os tempos de praia. (averomundo, 2007/08/05)