terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VII

Eugene Louis Boudin - A praia de Trouville (1864)

Aviso: Caro leitor, tenha a bondade de reparar que o texto é de 2007 e que, portanto, não está a ter nenhum pesadelo com o retorno do engenheiro Sócrates como chefe do governo. Nem tudo é assim tão mau na vida.

Apesar da temperatura por aqui ter subido, continua a nortada. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, a areia a borbulhar. O vento a tudo empurra, isto para escapar ao inevitável o vento tudo levou. As águas ainda estão bravias, a bandeira mais encarnada que a camisola do glorioso, imagino que saiba a quem me estou a referir. Mais um dia de glória, mais um dia sem pôr pé na areia. Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico, com sonhos de comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o venerando e atlético Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor, para dirigir a plastificação geral, do que um engenheiro de plástico?

Vem uma pessoa a banhos para descansar das fadigas do ano e, sem qualquer meditação filosófica, acaba por descobrir, só por olhar, a essência da nação. Portugal é um país de plástico. O plástico é aquilo que faz com a pátria seja aquilo que ela é. Espero que tenham compreendido. Um dia até a água e a areia serão de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a paróquia. Haja engenheiros, pensei, enquanto passava o cartão de plástico no terminal da caixa. Recolho ao lar, extasiado pela descoberta, e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. Não há plástico que sempre dure, penso comigo, mas sem grandes certezas. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão. (averomundo, 2007/08/07)