terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diário de um banhista - X

Kazemir Malevich - Bather (1911)

Confortado na certeza de ser o único e verdadeiro banhista, recusei-me hoje a pôr o pé na praia, não vá ele inchar ou tomar-se de urticária. Quem precisar de mostrar que é um banhista que vá a banhos, eu fico-me pela esplanada a enxotar moscas, a ler jornais, a beber cafés e a rodar a cadeira para fugir ao sol. Olho o mar e começo a contar os dias que faltam para, contristado, deixar o lugar idílico a que chamam praia, lugar que o calendário deste mundo infeliz me impõe com a regularidade das estações.

Nem uma aventura, mesmo metafísica, tenho para contar hoje neste pobre diário. Estes tempos fritam-me os neurónios, esfriam-me a coragem, e pouco mais consigo fazer do que balbuciar algumas palavras e deslocar-me, entre as sombras mortais que me rodeiam, com o ar desgastado de quem a vida abusou com trabalhos e sofrimentos, lutas e canseiras. Um banhista, mesmo da estirpe dos imortais como eu, não é de ferro. Estou cansado e, como o divino Ulisses, sonho com o regresso à pátria, que o malfadado Posídon não permite. Suspiro, se oiço o vozear das águas a bater nas areias. Quando chegarei a Ítaca, à minha doce ilha, pedaço de terra rodeada de calor por todos os lados?