segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XII

George Seurat - Seated Bather (1883-84)

Começo com uma máxima filosófica: o mal sempre vem. Se tivesse nascido na Grécia, há 2700 anos, seria hoje lembrado como um dos sete sábios, que seriam então oito. Não nos desviemos, porém, do essencial. Este é o diário de um banhista. Hoje, domingo, ocorreu o que temia na semana passada. Regra da casa: ao domingo, ninguém põe pé na praia, seja esta qual for. O que aconteceu, hoje, domingo, que tanta acidez me causa? Foi declarado dia de excepção. Por que motivo, Senhor, fizeste tão inconstantes as tuas criaturas? Tudo para a praia; a criançada banhante na vanguarda solar. Criançada quer dizer aqui: gente entre os 20 e os 27 anos. Mas quem será fiel às regras expressas para regulação da comunidade? No dia em que as regras não forem cumpridas por ninguém ainda serão regras? E poderá uma comunidade, pequena que seja, viver sem regras? Não, não, mil vezes não. Consola-me a imagem de Sócrates – não o glorioso engenheiro que nos pastoreia – a recusar infringir a lei de Atenas e pôr-se ao fresco, aceitando, corajoso e intrépido, a cicuta que o haveria de levar.

Eu, o banhista por antonomásia, decido abdicar do meu prazer da areia, dos escaldões solares, da gratificante companhia dos milhares e milhares de seres humanos que vêm exibir para a praia a sua humanidade, abdico, repito-me, da excelência da sua companhia nas águas onde mergulho. Decido, reafirmo, num gesto de puro altruísmo, sacrificar-me pelos valores comunitários, pelas regras, sem as quais não há excepções. Vão sem mim, digo, com um ar pesaroso e compungido, como se tivesse acabado de sair de um confessionário. Tenho pena de não os acompanhar, faço notar, mas fico por aqui a garantir o cumprimento zeloso das regras, a dar o exemplo que os mais novos, quando forem mais velhos e perceberem o alcance do gesto, reterão e transmitirão à sua descendência, se a tiverem. A esperança é a última coisa a morrer, dizem.

Abandonado por todos, sem esperança de uma sardinhada dominical, condenado a uma refeição frugal, o fiel banhista aqui está perante o computador a cumprir a sua missão: narrar a sua gesta, contar aos outros os seus feitos, propagar ao mundo a sua epopeia nas praias de Portugal. É um fresco épico o que o meu ego me pede, um fresco que cale as navegações de gregos e de troianos, até de lusitanos. Sinto-me já o novo Camões anunciado pelo Pessoa. Suave é a carícia das ninfas e o vento da inspiração. Tremo ao tocar no teclado, ao ver os meus dedos a deslizar suavemente pelas teclas, à espera que grandes palavras desçam pelos filamentos do meu ser e arrastem os dedos para a glória literária.

Mas o que resta a quem fica só? A memória, a doce mas infiel memória. A recordação das aventuras tidas, dos banhos tomados, dos mergulhos dados, das bolas-de-berlim tragadas. A única coisa que posso fazer é desfolhar o glorioso livro da minha estadia a banhos e dar a conhecer os extraordinários episódios onde, nestes dias, se revelou a minha essência de banhista. Um problema, porém, assedia a minha razão. Será que vale a pena repetir-me? Não será este diário, fiel acompanhante e confidente querido, a expressão mais viva dessas aventuras? Não será este diário prova suficiente da minha gesta à beira-mar? Medito longamente na ideia de me repetir e concluo a meditação com uma dolorosa questão: valerá a pena fazer como as pessoas já entradas na idade e repetir-me até não mais poderem ouvir-me?

Tomo, mais uma vez, uma decisão. Para quem é tão indeciso, a média de decisões por dia não deixa de espantar. Não, penso com os meus botões, vou poupar o leitor aos meus acessos temporãos de senilidade e calar-me. Desde que deixei de ir à missa e ao futebol, o domingo sempre foi um dia triste, salpicado de angústia. Remeto-me ao silêncio. Nele, conforta-me o espaço espiritual onde a minha memória, a doce memória destes dias bem-aventurados, vai consolar-me. Sim, a rememoração sempre foi a mais doce das consolações. É ela, caro leitor e cara leitora (sucumbir à novilíngua, que assegura a mais verrumante igualdade de género, foi uma outra decisão terrível), é ela que vai ser o analgésico para a dor de tanto abandono e de tanta traição. Rememorar as glórias destes dias é o que resta a um velho abandonado, num domingo sem igreja nem campo de futebol. É duro ser um fiel banhista. (averomundo, 2007/08/12)