domingo, 28 de agosto de 2016

Economia, ecologia e política


Viver de créditos tornou-se a essência das nossas sociedades. Isso é verdade no domínio da economia. O crédito é aquilo que permite que esta continue a rolar. Não é, todavia, desse crédito que quero falar. É outro crédito. No passado dia 8 de Agosto atingimos o limite do uso sustentável de recursos naturais disponíveis para este ano. Isto significa que consumimos 60% acima da nossa biocapacidade. Desde esse dia que estamos a viver de uma espécie de crédito da natureza. O Banco Mundial, por seu lado, afirma que, a manterem-se os actuais níveis de consumo e se a população atingir os 9,6 mil milhões em 2050, como está previsto, serão necessários quase três planetas terra para dispensar os recursos necessários.

Estes dados tornam patente a existência de um conflito entre duas racionalidades ligadas à nossa casa comum. Um conflito entre a racionalidade da economia e a racionalidade da ecologia. Vale a pena olhar para a etimologia destes dois vocábulos. Neste caso, a wikipedia basta. O termo economia vem do grego οικονομία (de οἶκος, translit. oikos, 'casa' + νόμος , translit. nomos, 'costume ou lei', ou também 'gerir, administrar': daí "regras da casa" ou "administração doméstica").  A palavra [ecologia] tem origem no grego "oikos", que significa casa, e "logos", estudo.

Tanto a economia como a ecologia têm na sua raiz o termo oikos (casa). A ecologia, porém, toma como seu objecto referencial o próprio oikos, a casa, enquanto a economia preocupa-se com as regras daquilo que se passa dentro da casa. Dito de outra maneira, a ecologia preocupa-se com a Terra e a economia com os interesses daqueles que vivem na Terra. A partir da primeira revolução industrial (séculos XVIII-XIX) começou a esboçar-se um conflito entre estas duas racionalidades. O interesse dos habitantes da casa – isto é, o abismo infinito do seu desejo – entrou em conflito com as potencialidades dessa mesma casa. Em resumo, enquanto a racionalidade económica exige mais consumo para gerar mais riqueza e, assim, responder ao sem fim dos nossos desejos, a racionalidade ecológica exige de nós austeridade e o fim de viver de créditos da natureza, isto é, de dilapidar os recursos naturais.

Temos alguma coisa a aprender com os antigos gregos, com aqueles de quem herdámos as raízes  dos vocábulos economia e ecologia? O que podem eles ensinar-nos? Podem ensinar uma coisa que, com o triunfo do liberalismo, estamos prestes a esquecer. A importância da política e, concomitantemente, do Estado. Entregar a resolução deste problema ao mercado, à sua livre iniciativa, representaria o triunfo da racionalidade económica sobre a racionalidade ecológica, o triunfo do princípio de prazer, consubstanciado no consumo, sobre o princípio de realidade, que exige de nós a contenção dos nossos desejos e uma virtude austera nos nossos consumos. Aristóteles, logo no início da sua Política, sublinha enfaticamente que governar a pólis não é a mesma coisa que governar o oikos. A política está acima da economia e é de outra natureza.


A partir do século XX, o Estado – com a sua máquina de violência legítima – não é apenas necessário para evitar que atinjamos os direitos naturais dos outros, a sua vida, a sua liberdade, a sua integridade e a sua propriedade, ou para assegurar as regras do jogo do mercado. Para que a espécie humana subsista, o Estado é chamado a arbitrar o conflito entre a racionalidade económica e a racionalidade ecológica. Se os Estados cederem ao canto de sereia dos interesses daqueles que habitam a Terra, se submeterem a lógica política à racionalidade económica, então os Estados e a própria política abandonam a missão que a espécie humana, há muito, lhes deu: assegurar a persistência da espécie na Terra ao longo do tempo. Hoje em dia, a política não é apenas necessária para proteger os homens uns dos outros ou das ameaças da natureza. Ela é também necessária para assegurar que a casa comum, o planeta Terra, seja ainda uma casa habitada e habitável nos próximos séculos.