segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Livro do Êxodo - 22. Tempo de caça

Annibale Carracci - Caza (1595)

Havia restos de caçadas pelo chão, animais em despojos assim frios, o sangue a aflorar a pele contaminada pelo nada, o futuro, sempre tão ávido, o trouxera. Os olhos, agora tão vidrados, escondiam-se nas órbitas e pouco naquelas naturezas mortas, tão pouco natureza e já tão mortas, lembrava o gesto febril com que do destino fugiam, cegos e surdos ao devir, para a ele se entregarem. Para os temíveis caçadores, eram dias de júbilo, na cerca se viviam. As árvores tapavam de sombra as terras e o calor, se aquecia num tempo inóspito, recuava movido pela inquietação das fatigadas folhas ao vento.

As mulheres, em passos de veludo e pensamentos inexplicáveis, levitavam e as saias, pois saias as vestiam, subiam-lhes à cabeça. As pernas brancas, brancas e tão desarmadas, despiam-se perante olhares atónitos, e as mãos acorriam como se socorressem marinheiros dizimados por ondas e naufrágios. Não abandoneis a casa rodeada pela cerca, disseste, pois estrangeiros fostes na terra e agora o que vos cabe é a espera da noite, o tempo atroz, as flores precárias que desenharão na pedra, entre animais tombados pela caça eterna, sinais de luz, uma rosa desfolhada, as nuvens que à lua agasalham, o pano que ao pão, em cesta de vime, esconde.

Foi um tempo de triunfo, a amarga morte só aos animais coubera e de todos os que na viagem tomaram lugar, a nenhum a parca foi pelos deuses, sempre solícitos, arremessada. Quando a tarde descaiu em direcção às trevas, as vozes entoaram salmos e cânticos heróicos, os imortais dias de glória haviam tecido, banhados pela espuma que da folhagem verde das árvores caía. Carne na carne se fundia e das mulheres suspiros da boca se desprendiam. Um desbaratado exército, pela aurora, à vertigem da manhã se entregou, as armaduras desfeitas, as armas pelo chão e no sítio das cabeças a vivaz luz da solidão.