quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Paraísos artificiais

Maurice Denis - Paradise (1912)

A relação do romance moderno, aquele que começa – se é que se pode falar de começos em arte – com o Quixote de Cervantes, com o mito da queda e a consequente expulsão do paraíso parece-me um elemento central para compreender a literatura romanesca, como escrevi em tempos (ver aqui). Não vou retomar a argumentação desse post, mas falar de uma outra faceta do romance, embora ligada a esta. Trata-se do romance ter também a função de destruir os paraísos artificiais que o desejo humano erige como ilusão consoladora do sentimento de abandono sobre a terra. O romance, nesse trabalho de destruição, torna patente que o paraíso não é o lugar do homem nesta vida.

Dois autores, muito diferentes, lidos nas férias ajudam a perceber essa função. Ivan Chmeliov, Sol dos Mortos (Relógio de Água), torna patente que o início da aventura comunista sobre o planeta não era o início da construção do paraíso terrestre, mas a construção sistemática e impiedosa de um inferno inaudito, mais um. O terror bolchevique e uma fome devastadora, ambos vistos a partir da Crimeia, são o preço da ilusão da construção de paraísos sobre a terra. A utopia paradisíaca é mostrada, numa estranha linguagem poética – uma poiesis da morte, dir-se-ia – na sua essência infernal, isto é, humana, demasiado humana.

O segundo autor, uma autora, escreve romances policiais. Tempo de férias, li três policiais (A Princesa do Gelo; Gritos do Passado; Teias de Cinza, todos da D. Quixote) da escritora sueca Camilla Lackberg. Estamos já distantes de Chmeliov. A sociedade sueca está muito longe daquilo que foram as sociedades comunistas. Contudo, em parte do Ocidente – com muita incidência em Portugal –, foi-se construindo uma imagem quase paradisíaca das sociedades escandinavas, com a Suécia à cabeça. Não encontramos ali o terror massivo descrito por Chmeliov, mas descobrimos um quotidiano onde as pessoas estão muito longe de parecer habitantes do paraíso. Sente-se que a velha educação protestante, por muito que tenha contribuído para formar bons cidadãos, está longe de ser capaz de formar boas pessoas. Consciências atormentadas pela retórica protestante, vistas pelos romances policiais de Camilla Lackberg, não são melhores do que as consciências católicas facilmente aliviadas pelo expediente da confissão. A sociedade sueca que a autora nos mostra está muito longe dos paraísos que a nossa preguiça desenha como forma de ilusão.

O romance não tem a função de defender visões ideológicas do mundo e das sociedades humanas. Mas ele não é indiferente à ideologia. Pelo contrário, ele tem um poder de desmontagem e desconstrução daquilo que a ideologia tenta vender para conforto dos seus defensores e consolo dos seres humanos em geral. E aquilo que a ideologia tenta sempre vender é um inferno disfarçado de paraíso. De certa maneira, Marx tinha razão. A ideologia é uma imagem invertida da realidade, mas isso inclui também aquela que se construiu sobre o seu pensamento. Também ele via uma imagem invertida do real. O romance tem a vantagem de não ter ilusões. Todas as imagens do real são imagens invertidas e, por isso, sujeitas a tornarem-se ideologia e a serem desmontadas pela arte romanesca, sem que o romance tenha alguma coisa a propor em substituição daquilo que destruiu.