segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Papa irritante


O Papa Francisco tem o condão de irritar uma certa direita e de agradar a uma certa esquerda. O que acontece com ele não é, porém, muito diferente do que aconteceu com João Paulo II, mas este agradava a uma certa direita e desagradava a uma certa esquerda. Na verdade, para além do estilo pessoal e das circunstâncias dos respectivos papados, não há diferenças, no essencial, entre eles. Como não há entre ambos e Bento XVI. Voltemos ao que irrita tanto certa direita. Em abstracto, o que a irrita é que Francisco não seja um chefe político, o seu chefe político global. De forma menos abstracta, o que a irrita não são sequer as questões de ordem moral, a abertura que o Papa tem ostentado para com os recasados e os homossexuais, ou a sua atenção aos problemas ecológicos. O que a irrita são as questões de ordem económica e a relação com o Islão.

Comecemos com as questões económicas e com uma longa citação de um artigo recente de Francisco Sarsfield Cabral: “O Papa Francisco é frontal e coerente, nas palavras e nos actos. No início do seu pontificado chocou algumas pessoas, nomeadamente com afirmações sobre problemas económicos e sociais. Depois, lendo com atenção o que o Papa dizia, verificou-se que ele falava segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI) – algo que muitos católicos acham uma doutrina simpática, mas ignoram na prática. Francisco veio, afinal, lembrar que essa Doutrina é mesmo para aplicar.” Na verdade, a DSI está longe dos devaneios dos teóricos do liberalismo contemporâneo e isso irrita as elites que vêem como virtuosa a devastação social fomentada pelas políticas ditas neoliberais e ordoliberais (a versão alemã do liberalismo contemporâneo).

A posição da Igreja não nega a propriedade privada dos meios de produção, a iniciativa empresarial e o papel do mercado na economia. Em suma, não nega o liberalismo, mas tempera-o. A DSI aproxima-se das antigas perspectivas da democracia-cristã e da social-democracia. Valoriza a ideia de comunidade e de integração de todos nessa comunidade. Esta é uma perspectiva cristã, mas não é a perspectiva de muitos cristãos. E isso é irritante para as elites sociais – nomeadamente, as católicas – que usam a Igreja para se diferenciar, reafirmar o poder e reproduzir o seu estatuto social. A irritação subjaz na forma desdenhosa com que tratam o actual Papa: o Papa Chico.

Outro motivo de irritação emerge com o problema do Islão. Apesar dos atentados levados a cabo pelo radicalismo islâmico, Francisco recusa-se a aceitar a existência de uma guerra religiosa – apesar de defender que o mundo está em guerra – e de ver o Islão com uma religião inimiga da convivência pacífica entre os homens. Tenho escrito múltiplas vezes sobre o problema do Islão, um assunto para o qual fui despertado pela já longínqua Revolução Iraniana, em finais dos anos setenta do século passado. Há no Islão uma desconformidade com a Modernidade e o Iluminismo muito mais acentuada do que aquela que existia entre essas dinâmicas da História e o Cristianismo, até porque muitos valores da Modernidade e do Iluminismo têm a sua origem no próprio Cristianismo. Não tenho dúvidas sobre o facto de certos sectores do Islão quererem – e agirem em conformidade – um conflito intercivilizacional.

A questão que se coloca, contudo, é se o chefe da Igreja Católica deverá reconhecer a existência de uma guerra religiosa entre o mundo cristão e o mundo islâmico. O que significaria esse reconhecimento? Em primeiro lugar, significaria o corte com a trabalho de diálogo com o Islão iniciado por João Paulo II e continuado com Bento XVI. Depois, significaria que, de um momento para o outro e por iniciativa do Papa, o mundo islâmico (e este está presente por todo o Ocidente) e o mundo de origem cristã se tornariam, formal e materialmente, inimigos. Isso poderia, por exemplo, dar origem a guerras civis em certos países europeus, instabilizar ainda mais as fronteiras com o mundo muçulmano, a começar pela da Turquia e acabar com os nossos vizinhos de Marrocos. Julgo que os grupos islâmicos radicais agradeceriam o favor.

Francisco não é ingénuo nem alguém que está ao serviço do inimigo. É antes de mais um jesuíta. E esta característica não pode ser dissociada da sua idiossincrasia pessoal. E os jesuítas foram e são educados para defender a Igreja e o Papa. Como jesuíta, Francisco é um diplomata e diz aquilo que quer dizer e não diz o que não quer. Há nele frontalidade mas também diplomacia. Como Papa, como sumo pontífice (pontifex), ele é construtor de pontes. E é isso que ele faz. Construir pontes com o outro. Seja este outro alguém que não segue a moral católica, alguém que pertence ao mundo dos excluídos, alguém que é ateu, ou alguém que professa outra fé. Um Papa não é um capo político. A dimensão que é a sua é supra-política, mais abrangente e mais profunda. É por isso que os Papas têm essa capacidade persistente de irritarem umas vezes a direita, outras a esquerda, e, por vezes, as duas ao mesmo tempo. É para isso, porém, que eles são o que são.