domingo, 9 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 3. A avenida

Juán José Vera - Azul (1982)

Tenso, o braço desloca-se quase na horizontal e volta ao ponto de partida. Ouvem-se ruídos de um pequeno motor, mas logo desaparecem. O homem, vestido de fato-macaco verde, com um nome de empresa indecifrável estampado no peito, puxa uma corrente.  Insiste, uma e outra vez, até que o corta-relvas ribomba num dos relvados entre prédios, para se tornar um contínuo monótono de pequenas explosões. A paz da avenida é quebrada, o dia inaugurado, trazido da obscuridade da noite para a corveia do dia. A manhã cresceu e os raios de sol batem nas árvores, despertando os homens para os afazeres que os dobram para terra, curvados ao peso do dever. Um carro, cor de cinza, pára lentamente. A porta do lado direito abre-se, uma rapariga, talvez nos seus quinze anos, de mochila na mão, logo a põe às costas, sai e dirige-se, vergada ao peso, batida pelo vento, para a entrada da escola. O Sol ilumina as copas das árvores e, olhadas de cima, as folhas mostram já manchas de cobre a anunciar o vigor do Outono. Em breve a calçada estará juncada desses restos de vida tomados pelo cansaço, seduzidos pela gravidade, numa girândola de cores quentes, como se prenunciassem o Inverno a vir. Da porta de um dos cafés, sai uma mulher, os passos firmes sobre uns saltos que lhe diminuem a pequenez, a enchem de confiança, a confiança com que empunha o comando e faz deflagrar o ruído do fecho central do carro e o súbito acender dos quatro piscas, que logo se desvanecem. Abre a porta e senta-se ao volante, sem cuidar que a saia lhe sobe pernas acima e as entregue à devassa de um transeunte, de fato escuro e coçado, que aceita, cobiçoso, a dádiva, com um olhar sonhador e implorativo. Ouve-se o zumbir do motor, o carro recua do estacionamento, entra na estrada, perde-se numa rotunda, vai-se dos olhos do homem, onde, por instantes, tinha dançado a esperança de sentir as mãos no oceano de uma pele oferecida ao império do desejo. Um pombo desliza, bate as asas, esconde-se na sombra de uma nuvem. Lá em baixo, rapazes e raparigas afadigam-se para dentro da escola, curvados ao peso dos livros, gesticulam, falam alto, enchem a manhã de palavras obscenas e risos estridentes. Quando a campainha toca, uma folha desprende-se do ramo e cai hesitante, batida pelo vento agreste, na pedra dura e gasta da calçada.