sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Knut Hamsun


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Como estamos em maré de Prémio Nobel da Literatura, este ano aberto a larga controvérsia, viajemos até 1920. Nesse longínquo ano, a academia sueca decidiu laurear o norueguês Knut Hamsun. Na altura, ele tinha chegado à casa dos sessenta anos, mas ainda estava longe o tempo em que ostentaria as posições políticas que o conduziram a sérios problemas com a justiça e a um grande ostracismo, tanto pessoal como literário, do qual só lentamente a sua obra tem vindo a sair. Na verdade, Hamsun foi um adepto convicto do nazismo, tendo apoiado a ocupação alemã da Noruega e o respectivo governo fantoche. Depois da guerra foi detido por traição e julgado.

Este apoio está em linha com posições ideológicas que se manifestaram desde muito cedo. O escritor norueguês cultivava, por um lado, um exacerbado individualismo. Por outro, uma crítica sistemática à modernidade ocidental. Estes dois traços, que não têm necessariamente de conduzir a um apoio à ideologia nacional-socialista, são centrais na sua obra literária. Os heróis são individualistas ostensivos, em conflito com as normas burocráticas da sociedade moderna. A vitória do indivíduo não se deve à trama das relações sociais, mas à sua vontade determinada em superar os obstáculos, sejam os colocados pela sociedade, sejam os que existem na natureza. Este incensar da vontade, algo que poderia também acontecer em alguém de orientação liberal e democrática, combina-se com a rejeição da modernidade, a qual é vista como um perigo para a relação fundamental do homem com a terra, por exemplo, no romance Os Frutos da Terra.

Knut Hamsun foi, apesar do seu anti-modernismo, um dos escritores mais importantes da transição do século XIX para o XX e um dos mais inovadores. Foi pioneiro no uso de técnicas literárias como o monólogo interior e a corrente de consciência que viriam a marcar toda a literatura do século XX. Apesar da personagem política que foi, Hamsun merece ser lido e relido. A Cavalo de Ferro Editores está a prestar um enorme serviço à cultura portuguesa e aos leitores ao traduzir algumas das suas obras (Fome, Pan, Victoria, Mistérios e Os Frutos da Terra). Por muito que as posições políticas de Hamsun nos ofendam, e elas têm muito para ofender, os livros que escreveu merecem ser lidos. Pode-se começar, por exemplo, com o extraordinário, embora estranho, Fome. Ou para quem ama o mundo rural com Os Frutos da Terra. Boa leitura.