terça-feira, 11 de outubro de 2016

Livro do Êxodo - 28. As romãs de cárdeno

Valle Julián - Plato con granada

Há no vento que cobre o mundo um excesso de palavras, a voz rouca, quase sombria no oceano encapelado da mudez, a pele marcada pela luz, tão luminosa, da ferrugem, a feroz ferrugem que cai vinda nem se sabe de onde. A água precipita-se, presa em apressada pressa, e foge para o mar e tudo se torna silente, entregue a uma longa maturação, anos sobre anos, o pão a levedar, as roupas novas a envelhecer sobre a pele, a dormirem exaustas no fundo de uma arca, na escura noite do esquecimento. Porque afagas a madeixa que te cobre a testa? Os olhos inclinam-se para o chão, as pálpebras descaem, um barulho de romãs, as velhas romãs  de cárdeno que no quintal colhias, cerca-te no poço da solidão.

Quando desenharam as estradas, em estirador sem gruas nem máquinas, um lugar sombrio, o sol dali fugira, não ouviram o ranger da terra, os gritos do corpo ferido pelo ferro, as pálidas flores silvestres decepadas, animais em fuga, uma promessa de alcatrão e um incêndio de carros a voar, estrada fora, tudo a crescer em estreitas linhas vermelhas, no papel que um dia te disseram: este é o teu país e aqui a casa de teus pais e aqui a escola onde estás. E tudo isso cresceu como uma promessa cantante, a cantar no desvão do cérebro ou na fímbria do coração, uma promessa que escondias se chegavam as chuvas, sempre tão molhadas, e pequenos rios nasciam da fonte dos teus olhos e inundavam a terra seca, a terra onde, entre romãs, havia pegadas, os teus pés as deixavam.

Era uma pátria incerta, de fronteiras volúveis, bordada por mãos cuidadosas, as tuas mãos feitas de memória e lírios enlouquecidos, onde roncavam animais perigosos, peixes voadores a cruzar os ares e aves palmípedes a escancarar a boca, se a noite caía, e tantas vezes, ainda dia, a noite sobre ti caía, depositava trevas nos teus olhos, arremessava negrumes pelo ventre, murmurava-te silêncios batidos pelo vento. Era assim que eu amava o teu país, mesmo quando a madeixa te cobria a testa, e gritavas: e em suas bordas farás romãs de cárdeno, e púrpura, e carmesim ao redor de suas bordas, as volúveis fronteiras que iam e vinham na ondulada respiração de teus seios, luas bravias, às minhas mão anoiteciam. E eu cantava à beira do abismo, tocava uma harpa de dor e enterrava na lama, tão enlameada, os pés e, com eles, o fogo do teu coração ou as romãs de cárdeno que em ti havia.