sábado, 15 de outubro de 2016

Livro do Êxodo - 29. Era tudo tão pardo

Antonio Tápies - Relieve gris. Nº VIII (1957)

Era tudo tão pardo. Ruas maculadas pela poeira, cães sarnosos a rosnar a quem passava, e se rosnavam em fúria exaltada, buracos no alcatrão, rapazes a correr, raparigas a espreitar pelos olhos encovados, os dias mergulhados em cinza e sombra, mesmo se solares. Era tudo tão pardo, e nas janelas, estreitas janelas rasgavam as paredes, assomavam cabeleiras desfeitas, homens em camisola interior, gritos pelas casas, se a névoa vinha, bandos de pássaros a caminhar para o sul, regatos informes, se chovia. Ouvia-se rádio, telefonia diziam, uma música fanhosa decorava os dias, estes a correr em direcção a outros e mais outros, rios de horas sem curvas, nem sobressaltos, a não ser a doença, a morte súbita, um vidro que se partia.

E pão ázimo, e bolos ázimos, amassados com azeite, e coscorões ázimos, untados com azeite, tudo isso e ainda as mãos que me afagavam a cabeça e me deixavam suspenso na ilusão de um brilho no horizonte da noite, se caminhasse, se caminhasse sem parar, passasse por florestas e rios, por estradas sem nome ou terras sem gente. Tudo se resumia, na quimera que então se arvorava, a pôr os pés à estrada, e não voltar mais a cabeça, deixar a água para sempre presa nas bilhas de barro, cântaros lhes chamavam, o balde a apodrecer dentro do poço, os jornais velhos adormecidos na arrecadação, as árvores carcomidas pelos insectos da tarde, e um cansaço tão grande na sombra que curvava para a ferrugem o ferro que era a alma.

Os rapazes sonhavam com raparigas, os seios duros, as coxas frementes, o sexo molhado, a boca florida pela saliva que nela corria. Rapazes e raparigas, como os vejo ao longe, também eles pardacentos, invadidos pela cinza, como se tivessem incoado no restolho ardido da vida. Se a noite estrondeava, encolhiam-se entre lençóis, e adormeciam com o cheiro acre da madeira ardida, e como ela ardia, entranhado nos ossos, preso nos cabelos, cravado no escuro coração que os habitava. Não havia, por esses dias, anjos, nem relâmpagos, apenas a escuridão depois da luz apagada, os olhos a antecipar a morte, assim ela virá, o mundo a esvair-se, a memória a fincar o pé. De tudo isso queria enxertar imagem no ramo vesgo do tempo, na carcaça mórbida da memória e dizer, num murmúrio incompreensível, a vida assim fora e calar-me.

Era tudo tão pardo e nem dias de pão ázimo havia, nem raparigas ao sol, apenas aquelas que nasciam despidas em calendários sonâmbulos, calendários que marcavam o lento empardecer da vida e enfeitavam os lugares, todos os lugares, onde os homens se juntavam para falar, e como eram tão sérios ao falar, de coisas da bola, ou da vida, ou do mundo, como se tudo isso não fosse a mesma coisa e eles precisassem, sem renúncia ou desespero, daquelas raparigas acaloradas, a saltar para os meus olhos, para se cumprirem na solidão que era a deles, ou as terem por testemunho das conversas, tão sábias conversas eles tinham nas tardes intermináveis dos sábados.

Era tudo tão pardo, as casas, os campos, a erva raquítica que crescia pelo Verão, as águas do fim do Outono, os caminhos que sulcava se me perdia de mim, as vozes que ouvia no rumorejo da tarde, alguma cobra, os cães rafeiros perdidos pela estrada a uivar ao crepúsculo. Era tudo tão pardo, menos as noites negras, onde brilhavam estrelas e, na sintaxe astronómica que então as regia, os meus olhos cresciam, entre constelações, para além do mundo, para o país do silêncio, palavra alguma ali se articulava, sem fronteiras nem rios nem mares, apenas a luz estelar e o sussurro do vento a encher a noite de fantasmas. Riam, se os olhava e desapreciam envoltos na capa pardacenta do tempo, da vida os levaram sem um grito sem um lamento.